A Iskra · Volume 5 · Setembro de 2026
A 20 dias das eleições, o cenário segue indefinido
Lula e Flávio Bolsonaro, o duelo pela presidência: quatro institutos apontam empate técnico no segundo turno, o caso Dark Horse chega ao STF, e o PT tenta transformar militância de rua em linguagem capaz de disputar o eleitor indeciso
46% · 46%
Empate técnico no 2º turno nas quatro pesquisas da semana
43,7% a 47%
Aprovação do governo Lula, sempre abaixo da desaprovação
26 estados
Mobilização do PT no Dia 13 com Lula
R$ 61 milhões
Pedido de Flávio a Vorcaro apurado no caso Dark Horse

Sobre esta edição
Apresentação
Flávio cresce nas pesquisas e carrega uma evidência judicial que pode virar contra ele a qualquer momento. O PT tem militância nas ruas e um caso novo em mãos. Falta transformar isso em estratégia.
Esta edição parte de uma leitura simples. A pesquisa não decide sozinha o segundo turno, decide quem consegue interpretá-la primeiro e falar direto com a ansiedade do eleitor indeciso. Hoje é a campanha de Flávio Bolsonaro que lê esse tabuleiro com mais precisão, mas a evidência mais forte já reunida contra ele e a militância que o PT levou às ruas em 13 de setembro mostram que essa vantagem ainda pode mudar de mãos.
Leitura central
A campanha de Lula ainda aposta num fato de cada vez para virar o jogo. A de Flávio já fala, todos os dias, com a ansiedade específica de cada eleitor.
| # | O que aconteceu |
|---|---|
| 01 | São quatro rodadas nacionais na semana, BTG/Nexus, Meio/Ideia, AtlasIntel e Datafolha, e o segundo turno está tecnicamente empatado em todas dentro da margem de erro, com Flávio aparecendo numericamente à frente em duas, uma exatamente igual, e a mais recente, a própria Datafolha, com Lula à frente |
| 02 | A aprovação do governo Lula oscila entre 43,7% e 47% conforme o instituto, sempre abaixo da desaprovação, e segue sendo o dado que melhor explica a disputa apertada |
| 03 | Em 13 de setembro, o PT levou militância às ruas em 26 estados no Dia 13 com Lula, resposta direta ao avanço de Flávio nas redes, mas sem transformar a mobilização em discurso capaz de disputar o eleitor indeciso |
| 04 | Tornou-se público que o ministro André Mendonça incluiu Flávio como investigado em inquérito do STF por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no financiamento do filme Dark Horse. Dois dias depois, o candidato cancelou compromissos de campanha em Presidente Prudente |
01 · Radar de pesquisas
Quatro institutos, um só veredicto: o primeiro turno não se mexeu
Quatro institutos divulgaram pesquisa nacional entre 7 e 13 de setembro — BTG/Nexus, Meio/Ideia, AtlasIntel e Datafolha —, com campo espalhado entre 4 e 10 de setembro, não numa janela única. Quaest e Genial/Quaest não têm rodada neste período, a mais recente é de 7 de setembro, véspera da primeira divulgação, e por isso não entram nas tabelas abaixo. Registrar essa ausência é parte do método: uma pesquisa que falta muda o que se pode afirmar sobre o período.
| Instituto | Divulgação | Campo | Registro TSE | Amostra | Margem de erro |
|---|---|---|---|---|---|
| BTG/Nexus | 08/09 | 04 a 07/09 | BR-06790/2026 | 2.002 | 2 p.p. |
| Meio/Ideia | 09/09 | 04 a 07/09 | BR-07935/2026 | 1.500 | 2,5 p.p. |
| AtlasIntel | 10/09 | 04 a 09/09 | BR-01452/2026 | 5.000 | 1 p.p. |
| Datafolha | 11/09 | 08 a 10/09 | BR-01833/2026 | 2.002 | 2 p.p. |
Nível de confiança de 95% nas quatro rodadas. Para contexto, a série Genial/Quaest mostrava a vantagem de Lula caindo de 16 pontos em agosto de 2025 para 5 em fevereiro de 2026, antes do empate técnico registrado agora.
No primeiro turno, segue tudo igual
Lula lidera as quatro rodadas sem exceção, entre 38,4% e 43%. Flávio oscila entre 34% e 37,4%, sem recuperar o patamar do fim de agosto. Augusto Cury segue estável em terceiro lugar isolado, entre 6% e 9%. O primeiro turno já estava parado antes desta semana.
| Candidato | BTG/Nexus | Meio/Ideia | AtlasIntel | Datafolha |
|---|---|---|---|---|
| Lula (PT) | 39% | 38,4% | 43,0% | 39% |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 34% | 37,3% | 37,4% | 35% |
| Augusto Cury (Avante) | 9% | 6,6% | 6,6% | 6% |
| Renan Santos (Missão) | 4% | — | 6,5% | 3% |
| Ronaldo Caiado (PSD) | 4% | 4% | — | 4% |
| Romeu Zema (Novo) | 2% | 4% | 1,1% | 2% |
Tecnicamente empatados, os números não dizem a mesma coisa
É aqui que o segundo turno aperta de fato, com sinais em mais de uma direção. Nas quatro rodadas, a diferença entre Lula e Flávio está dentro ou na borda exata da margem de erro, ou seja, tecnicamente é empate nas quatro. Em duas delas o número que cada instituto publica como resultado já é favorável a Flávio, numa é exato, e na mais recente, a Datafolha, o número volta a favorecer Lula, situação que não se repetia desde o início do mês.
| Instituto | Lula | Flávio Bolsonaro | Leitura |
|---|---|---|---|
| BTG/Nexus, 08/09 | 45% | 46% | Empate técnico, número favorece Flávio |
| Meio/Ideia, 09/09 | 46% | 46% | Empate exato |
| AtlasIntel, 10/09 | 46,2% | 46,4% | Empate técnico, número favorece Flávio |
| Datafolha, 11/09 | 46% | 44% | Empate técnico, número favorece Lula |
Empate técnico significa que a diferença está dentro da margem de erro de cada pesquisa, logo não é estatisticamente segura. A diferença de 2 pontos da Datafolha coincide com a própria margem de erro do instituto, ainda dentro do empate técnico, mas no ponto em que deixaria de ser se a distância crescesse um pouco mais.
A força da leitura está na comparação entre quatro institutos, com metodologias e janelas de campo diferentes, e não numa pesquisa isolada. É esse conjunto de dados que sustenta a conclusão desta edição: nenhum instituto sozinho é suficiente para declarar o segundo turno decidido em qualquer direção.
Vale também registrar o que essas quatro rodadas, somadas, não mostram. Nenhuma indica recuo de Lula em termos absolutos, o presidente mantém percentual estável em relação a agosto. O que mudou foi o crescimento de Flávio nas outras três rodadas, suficiente para fechar a distância e, em duas delas, ultrapassá-la — um avanço do desafiante, desigual entre institutos, e não um recuo do favorito.
Regra de leitura: o empate técnico
Empate técnico com vantagem numérica de um lado não é a mesma coisa que empate técnico com vantagem numérica do outro, e quatro institutos divergindo no sentido do número bruto retratam o normal de uma disputa dentro da margem de erro, não uma falha de método. A conclusão prudente é que o segundo turno segue aberto, sem vencedor definido na rodada desta semana.
A aprovação de governo explica essa disputa melhor do que qualquer pesquisa de segundo turno
Três das quatro rodadas mediram aprovação e desaprovação de governo nesta semana. Em todas elas a desaprovação supera a aprovação, com a Datafolha no cenário menos negativo e a AtlasIntel no mais negativo, queda de 1,3 ponto frente a agosto. Meio/Ideia não perguntou sobre avaliação de governo nesta rodada.
| Instituto | Rejeição Lula | Rejeição Flávio | Aprovação governo | Desaprovação governo |
|---|---|---|---|---|
| BTG/Nexus, 08/09 | 49% | 50% | 45% | 50% |
| Meio/Ideia, 09/09 | 46,6% | 45,7% | não medido | não medido |
| AtlasIntel, 10/09 | não medido | não medido | 43,7% | 53,8% |
| Datafolha, 11/09 | não medido | não medido | 47% | 50% |
A rejeição pessoal dos dois candidatos anda parecida, sem vantagem clara de nenhum lado. Na BTG/Nexus, Flávio tem rejeição um pouco maior que Lula, 50% contra 49%. Na Meio/Ideia, a distância também é mínima, 45,7% contra 46,6%, agora com Lula à frente. Nenhum dos dois chega à disputa como o mais bem-quisto, o que explica por que a batalha se decide mais pela linguagem de campanha do que pela simpatia pessoal.
A própria Datafolha ilustra a falta de uniformidade entre institutos: seu cenário de 21 de agosto já mostrava a mesma distância de 4 pontos, só que invertida, 47% a 43% a favor de Lula em agosto, 46% a 44% em setembro. Isso reforça por que a aprovação de governo, estável abaixo da desaprovação, explica melhor essa oscilação do que qualquer pesquisa isolada de segundo turno.
Regra de leitura: aprovação de governo
Aprovação abaixo de 50% em todas as rodadas é o pano de fundo do período, e pesa mais no segundo turno, quando a preferência entre concorrentes importa menos do que a escolha de quem o eleitor de fato quer como presidente.
Lula está a menos de 7 pontos do primeiro turno, Flávio precisa de quase o dobro disso
A pergunta que a manchete de primeiro turno raramente responde é quanto falta, de fato, para vencer sem segundo turno. A Constituição exige mais da metade dos votos válidos, descontados brancos, nulos e indecisos. Só a AtlasIntel e a Datafolha publicaram, nesta semana, a quebra completa que permite esse cálculo, por isso o comparativo abaixo fica restrito às duas.
| Instituto | Lula, % dos válidos | Falta para 50%+1 | Flávio, % dos válidos | Falta para 50%+1 |
|---|---|---|---|---|
| AtlasIntel, 10/09 | 43,4% | 6,6 pontos | 37,8% | 12,2 pontos |
| Datafolha, 11/09 | 43,3% | 6,7 pontos | 38,9% | 11,1 pontos |
As duas rodadas publicam a lista completa de candidatos registrados, mais extensa do que os seis nomes exibidos na tabela de primeiro turno desta edição, e é sobre essa lista completa que o desconto de brancos, nulos e indecisos foi aplicado, 1% na AtlasIntel e 10% na Datafolha. Sobre essa base, Lula soma entre 43,3% e 43,4% dos votos válidos e Flávio, entre 37,8% e 38,9%. As duas rodadas mais recentes e mais completas da semana convergem no mesmo diagnóstico: ao presidente faltam cerca de 6,6 a 6,7 pontos para vencer em 4 de outubro sem segundo turno, a Flávio faltam entre 11,1 e 12,2. Cálculo de A Iskra, metodologia no expediente.
Regra de leitura: distância para vencer em 1º turno
Vencer em primeiro turno e vencer com folga no segundo turno são metas diferentes. Os números desta semana mostram Lula mais perto da primeira do que Flávio está da segunda, mas nenhuma das duas está garantida a quatro semanas da eleição.
O que a Datafolha mede sobre o Supremo, e o que ela não muda
Além da corrida presidencial, a rodada Datafolha de 11 de setembro trouxe um módulo específico sobre como o eleitor avalia o STF, apurado no mesmo campo de 8 a 10 de setembro, bem no meio do agravamento da crise entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes e dias antes de Edson Fachin abrir as sessões de 15 de setembro, dedicada ao caso Moraes, e 23 de setembro, dedicada ao caso Mendonça.
76%
Acham que os ministros do STF têm poder demais
77%
Dizem confiar menos na Corte do que confiavam no passado
71%
Ainda consideram o tribunal essencial para a democracia
O dado que mais importa para a leitura desta edição é a comparação temporal: os três percentuais praticamente repetem o que a mesma pergunta já media em abril, meses antes de a crise Mendonça x Moraes ganhar o noticiário desta semana. Isso significa que a percepção de poder excessivo do STF vem se formando havia meses, antes deste episódio específico. A crise atual pode reforçar uma opinião que já existia, mas os números não sustentam a hipótese de que ela esteja, sozinha, deteriorando a imagem do tribunal em tempo real.
A diferença importa na prática para quem faz comunicação política. Tratar a crise Mendonça x Moraes como evento capaz de abalar a confiança no STF superestima o próprio episódio, a confiança já estava baixa e estável havia meses. Ao mesmo tempo, os 71% que ainda veem a Corte como essencial para a democracia mostram que a crítica ao poder dos ministros não se traduz, na maioria do eleitorado, em desejo de esvaziar a instituição — um limite real para qualquer campanha, seja a de Flávio ou a de Lula, que tente transformar a crise institucional em munição eleitoral de forma simplificada.
02 · Radar de públicos
O segundo turno tem rosto, renda e religião diferentes de cada lado
A própria Datafolha, na mesma rodada de 8 a 10 de setembro que sustenta o Radar desta edição, também apurou intenção de voto por perfil de eleitor. O recorte não muda o quadro geral, mas mostra onde a comunicação de cada campanha já convence e onde ainda precisa convencer.
| Perfil | Lula (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) |
|---|---|---|
| Mulheres | 41% | 30% |
| Homens | Empate técnico | |
| Até 2 salários mínimos | 47% | 27% |
| De 2 a 5 salários mínimos | 31% | 42% |
| Acima de 5 salários mínimos | 27% | 47% |
| Católicos | 46% | 29% |
| Evangélicos | 22% | 50% |
| Ensino fundamental | 52% | 24% |
Percentuais de primeiro turno, mesma metodologia da tabela do Radar, BR-01833/2026, 2.002 entrevistados, margem de erro de 2 pontos. Homens aparecem como empate técnico entre os dois candidatos, sem casa decimal divulgada nas fontes consultadas. A diferença para 100% em cada linha corresponde aos demais candidatos e a brancos, nulos e indecisos.
Evangélicos e o eleitorado de renda média, de dois a cinco salários mínimos, são hoje os segmentos onde o campo progressista mais perde terreno, dado compatível com a hipótese de que a linguagem de Flávio converte apoio em voto com mais eficácia nesses grupos, hipótese que só pesquisa qualitativa poderia confirmar. Mulheres, quem ganha até dois salários mínimos e quem tem só o ensino fundamental seguem majoritariamente com Lula, mas com folga menor do que a média nacional sugere, base que pede reforço constante até outubro.
O que esse recorte diz para quem faz campanha
Quem produz conteúdo segmentado para o campo progressista encontra no público evangélico e na renda média o terreno mais hostil, e na renda baixa e menor escolaridade a base que sustenta a vantagem, desde que continue sendo procurada.
03 · Trendômetro
Cury, Caiado, Renan Santos e Zema seguem presos à sombra da polarização
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro dividem o segundo turno, as outras quatro candidaturas seguem fora da disputa real, competindo por um espaço que a própria polarização não para de encolher. Esta seção reúne o que cada uma fez na semana e por que esse eleitorado pesa mais do que o tamanho sugere.
| Candidatura | O que fez na semana |
|---|---|
| Augusto Cury | Formalizou, em 4 de setembro, nova gestão de comunicação sob a agência Comunica Brasil, reunindo mídias sociais e produção de vídeo para converter alcance digital em voto. Em 7 de setembro, caminhou em Copacabana com discurso de pacificação, reforçando a imagem de alternativa à polarização. Segue na melhor posição entre os quatro, entre 6% e 9% |
| Ronaldo Caiado | Concentrou a semana em Goiás, no desfile cívico-militar de 7 de setembro em Goiânia, sua principal aparição pública do período. A candidatura segue apoiada na força regional de governador, sem alcance nacional equivalente. Oscila entre 1,1% e 4% nas quatro rodadas |
| Renan Santos | Teve a candidatura plenamente validada pelo TSE em 9 de setembro, encerrando o risco de cassação que pesava desde 31 de agosto por indício de irregularidade nas petições do partido Missão. Segue como o mais frágil dos quatro nas pesquisas, entre 3% e 6,5% |
| Romeu Zema | Fez agenda em Minas Gerais nesta semana, em Sete Lagoas, sem ato conjunto com Mateus Simões, candidato ao governo do estado pelo mesmo campo. A ausência de dobradinha é compatível com a hipótese de campanhas separadas, a confirmar nas próximas semanas. Marca entre 2% e 2,1% nas quatro rodadas |
As quatro candidaturas compartilham o mesmo teto, boa avaliação em suas bases regionais, e nenhuma demonstrou até aqui estrutura organizacional para viabilizar candidatura nacional competitiva. A mesma lógica de dois blocos já se repete na maioria das disputas estaduais, reduzindo em quase todo o país o espaço real para uma terceira via. A mais recente rodada BTG/Nexus sobre o tema, de 24 a 26 de julho, mostra 22% do eleitorado preferindo uma candidatura fora de Lula e da família Bolsonaro, queda de cinco pontos frente à rodada anterior. Forçado a escolher, esse grupo pende mais para Lula, 19% a 12%, mas enxerga o campo bolsonarista como alternativa aceitável em proporção maior, 16% a 11%, sinal de que essa ponte pode ser mais fácil de construir pela direita.
Por que essa eleição pequena importa para as duas campanhas grandes
Entender essas aspirações pesa tanto quanto medir o tamanho do grupo, tarefa estratégica para as duas campanhas grandes.
Flávio muda o sentido da palavra soberania
Desde o episódio Dark Horse, em maio, Flávio Bolsonaro vem repetindo a mesma técnica de comunicação digital: a apropriação de uma palavra do repertório institucional para reconectá-la a uma ansiedade concreta do dia a dia. Soberania nacional virou, no discurso, perda de controle sobre o próprio celular, o carro, a bolsa, a casa — uma tradução direta de insegurança pública para linguagem de conceito abstrato, invertida.
| Data | Marco na linha do tempo |
|---|---|
| Maio | Episódio Dark Horse, início dos microalvos temáticos de Flávio |
| 7 de setembro | Ato no Rio de Janeiro, público 32% menor que no ano anterior |
| 13 de setembro | Dia 13 com Lula, mobilização do PT em 26 estados, ver O Tom da Semana |
A comunicação de Flávio migrou de disputa ideológica ampla para uma sequência de microalvos — segurança, custo de vida, autoridade paterna — cada um com linguagem própria nas redes. O próprio Radar desta edição mostra que essa tradução vem funcionando, por ora: Flávio já divide o segundo turno com o presidente e chega à frente do número bruto em duas das quatro rodadas da semana. Fica uma ressalva de método: esse avanço ainda está dentro da margem de erro nas quatro pesquisas, e a repetição do mesmo mecanismo em três momentos distintos da campanha configura um padrão a acompanhar, algo bem diferente de uma vitória já consolidada.
Essa vantagem tem, porém, um limite conhecido. O eleitorado que consome esse conteúdo no YouTube tende a ser mais jovem e já conectado; o desafio de Flávio é replicar essa gramática onde pesa o eleitor mais velho, rádio AM, horário eleitoral e boca a boca fora das capitais. O ato do Rio mostrou esse limite na prática: Flávio colou a imagem de Moraes à de Lula, “duas faces da mesma moeda”, mas moderou o discurso contra o Supremo, o público encolheu em relação ao ano anterior, e ele evitou responder sobre o financiamento de Vorcaro a assessores da campanha.
Por que isso é Trendômetro: uma tática que virou padrão
A ressignificação de soberania deixou de ser tática pontual e virou gramática permanente, desde que a campanha a leve também para fora do ambiente digital, o que o ato do Rio ainda não confirma.
04 · O tom da semana · Opinião assinada, Patrick Paraense
O PT tem munição e militância, mas ainda fala a língua errada
O segundo turno está tecnicamente empatado nas quatro rodadas da semana, com o número bruto dividido entre os dois lados. Esse empate tem uma causa que merece exame.
O Trendômetro desta edição já registra a peça central dessa diferença: a forma como Flávio reformulou soberania nacional como perda de controle sobre o próprio carro, o celular, a casa. Do outro lado, Lula segue apostando em linguagem de memória e identidade coletiva, gestão comparada, resultado de governo. A escolha de vocabulário por trás de cada discurso é o que hoje separa as duas campanhas, mas não é a única variável em jogo. O PT chegou a este domingo com dois recursos que a campanha de Flávio não tem, uma militância disposta a ocupar rua em 26 estados e uma evidência judicial nova que ainda não usou.
Essa mudança de linguagem vem de mais longe. A vantagem de Lula sobre Flávio, medida pela série Genial/Quaest, já vinha caindo de 16 pontos em agosto de 2025 para 5 pontos em fevereiro deste ano, antes de chegar ao empate técnico que o Radar desta edição registra agora. É uma erosão de mais de um ano, e ela expõe um padrão de comportamento na campanha de Lula: a aposta recorrente em um fato específico como se bastasse, sozinho, para virar o jogo. Já foi assim com a centralidade do próprio presidente na comunicação de governo, estratégia que uma pesquisa Quaest de abril de 2025 já mostrava pouco eficaz — metade dos entrevistados achava que Lula aparecia menos, não mais, e quase metade dizia que a mudança não tinha alterado o predomínio de notícias negativas sobre ele.
O mesmo padrão de aposta única voltou a se repetir com o caso Banco Master, só que desta vez a própria campanha precisou recuar dele. Levantamento de publicações mostra o PT concentrando 85,4% de suas menções ao Master no período anterior a julho, quando a Polícia Federal abriu investigação por corrupção e lavagem de dinheiro contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), até então líder do governo no Senado. Depois da operação, essa fatia caiu para 14,4%, e o partido trocou o ataque a Flávio pela defesa do próprio senador e pelo pedido de uma CPI. O PL fez o caminho inverso, subiu de 19 para 24 publicações mensais sobre o caso no mesmo período e redirecionou o foco para a relação entre Wagner e o banqueiro Daniel Vorcaro, tentando associá-la a Lula. Um levantamento independente da Datrix sobre menções digitais registra o mesmo efeito por outro ângulo: a queda de menções ao Master coincide com o período em que Flávio consolidou vantagem no debate digital. A arma que o PT escolheu para tratar Flávio como corrupto conhecido ficou contaminada por dentro do próprio partido, e a campanha de Lula segue sem substituí-la, mesmo com o caso Dark Horse oferecendo, desde esta semana, evidência mais nova e ainda sem esse desgaste.
Existe roteiro, falta execução
Dizer que o PT não tem estratégia nenhuma seria simplificação, e esta newsletter não pretende trocar um exagero por outro. A campanha de Lula tem, no papel, um roteiro definido para o cenário bolsonarista, uma frente ampla pela democracia, que apresenta a eleição como plebiscito entre uma democracia imperfeita e o risco autoritário. O problema está no que se perde entre o roteiro escrito e o que chega à ponta, falha de execução que esta edição detalha mais adiante. Soma-se a isso um núcleo de campanha reduzido a quatro nomes, os ministros Sidônio Palmeira e Guilherme Boulos, o presidente do PT Edinho Silva e o petista Paulo Okamotto, depois de vazamentos internos de estratégia — decisão que resolve um problema de sigilo, mas não resolve, sozinha, um problema de execução. O mesmo padrão apareceu no ato de 7 de setembro, quando o presidente evitou a crise do Supremo no palanque e só tratou do tema depois, em vídeo nas redes.
É pouco crível que uma candidatura do porte da de Lula não tenha acesso a pesquisas qualitativas capazes de orientar essa ação nas ruas e nas redes. O que a sequência de escolhas sugere é outra coisa: uma direção de campanha que apostou, desde o início, numa leitura específica, a de que Flávio, nome já associado a denúncias de corrupção, seria fácil de desmontar, e que subestimou a força ideológica que o bolsonarismo consolidou nos últimos anos. Essa força consolidada hoje dispersa a resposta de Lula, que reage ataque a ataque sem ainda ter construído linguagem própria capaz de romper o teto que as duas campanhas enfrentam.
O argumento contra Flávio acabou de ficar mais forte
O caso Dark Horse mudou de estágio nesta semana. Em 11 de setembro, tornou-se público que o ministro André Mendonça incluiu Flávio como investigado em inquérito sigiloso do STF, apurando lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme sobre o próprio pai, com a Polícia Federal apontando pedido de 61 milhões de reais ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e documentando orientações do próprio Eduardo Bolsonaro sobre a gestão desse dinheiro nos Estados Unidos, pelo fundo Havengate, já identificado pela revista Piauí como destino de 12,3 milhões de dólares enviados por Vorcaro. Dois dias depois, Flávio cancelou dois compromissos de campanha em Presidente Prudente — a campanha citou os acontecimentos da semana e a chuva forte na região, primeiro custo político visível do caso.
A Datafolha foi a campo entre 8 e 10 de setembro, um dia antes de o caso ganhar repercussão nacional, e por isso ainda não mede esse efeito. A campanha de Lula também não converteu o avanço em discurso: na mobilização de rua do mesmo domingo o foco ficou nos vinte e seis estados e na militância nas ruas, sem que nenhuma liderança nomeasse, com data e fonte, o inquérito que passou a mirar o adversário dois dias antes.
Diferente do caso Banco Master, hoje absorvido no vocabulário de Flávio como sinônimo de corrupção do entorno do governo, o caso Dark Horse ainda não foi capturado por nenhum enquadramento do lado do PT. É a primeira munição desta campanha que chega intacta às mãos de Lula, e o que se faz com ela nos próximos dias depende de quem entender primeiro seu valor.
Vale uma distinção que a própria Justiça já fez. Em fevereiro, uma decisão da 16ª Vara Cível de Brasília havia negado que Flávio aparecesse nas investigações do núcleo financeiro do escândalo Master, a fraude de cerca de R$ 12 bilhões em operações de crédito entre o banco e o BRB. O que mudou agora é outro núcleo do mesmo caso, o do financiamento do Dark Horse, onde Flávio passou a ser nomeado interlocutor direto do banqueiro Daniel Vorcaro. São dois processos diferentes dentro do mesmo escândalo, e tratar os dois como uma coisa só fragiliza o argumento.
Por que essa evidência muda o jogo
Munição judicial não vence eleição sozinha, precisa virar discurso capaz de chegar ao eleitor que ainda hesita. É esse o passo que falta à campanha de Lula, do qual depende transformar uma vantagem factual em vantagem eleitoral antes que o adversário reaja.
As fragilidades que a comunicação de Lula ainda não usa
O caso Dark Horse não é a única fragilidade de Flávio nesta reta final. A campanha carrega pelo menos mais duas, de naturezas diferentes, e as duas mais estruturais do que um episódio isolado.
A primeira é a distância calculada que Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e principal nome do bolsonarismo fora da família, mantém do candidato. Avaliações do Centrão apontam que Tarcísio dosa esse apoio porque precisa do eleitorado bolsonarista para se reeleger em São Paulo, mas não quer transformar a própria campanha em plataforma nacional para o rival, preservando espaço para uma candidatura própria em 2030. Enquanto o nome mais forte da direita fora da família Bolsonaro segue condicionando o apoio a esse cálculo, a candidatura de Flávio depende de uma base que nem sempre está plenamente mobilizada por ele.
A segunda é estrutural: o bolsonarismo funciona como movimento personalista e familiar, com baixa institucionalização, o que limita a autonomia de qualquer nome que não seja o próprio Jair Bolsonaro ou os filhos dele. Isso ajuda a explicar por que nenhuma das quatro candidaturas menores desta edição consegue disputar espaço com Flávio dentro do próprio campo à direita, mas também expõe um risco: a candidatura depende mais do sobrenome Bolsonaro do que de um projeto autônomo, o tipo de dependência que qualquer crise pessoal do clã atinge em cheio.
Nenhuma das duas fragilidades está sendo explorada, hoje, pela comunicação de Lula.
Por que essas fragilidades também são oportunidade
Cada fragilidade aponta para um ângulo de comunicação diferente: a dependência de Tarcísio sugere que o próprio campo bolsonarista não está plenamente convencido, e o personalismo do movimento sugere que atacar a candidatura pelo sobrenome da família pode render mais do que atacá-la pelo currículo pessoal de Flávio. Nenhuma newsletter substitui pesquisa qualitativa dedicada, mas os dois ângulos já estão publicamente disponíveis para quem quiser testá-los.
Cinco temas, dois idiomas diferentes
Flávio fala mais linguagens do que Lula, e o quadro abaixo mostra onde. Ele resume os eixos que aparecem com mais consistência no horário eleitoral, nos discursos e nas redes de cada candidato, segundo reportagem verificada da primeira quinzena de setembro, listada no expediente.
| Tema | Lula (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) |
|---|---|---|
| Saúde e governo | Retomada de Farmácia Popular, SAMU, UPAs e Brasil Sorridente, meta de oncologia em 30 dias, contraste com o negacionismo na pandemia | Não é eixo próprio, aparece só como pano de fundo de outras críticas ao governo |
| Trabalho e tributos | Fim da escala 6x1 como bandeira exclusiva, “só Lula defende”, isenção de imposto sobre a cesta básica | Redução de tributos para baratear preço ao consumidor, foco em desonerar empresas, não em jornada de trabalho |
| Segurança pública | Responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios, PEC da Segurança, combate ao crime do colarinho branco além do crime de rua | Endurecimento penal, redução da maioridade penal, classificar PCC e CV como organizações terroristas |
| Custo de vida | Menor desemprego da história, alta real do salário mínimo, atribui pressão inflacionária a tarifas e conflitos internacionais | Preço de supermercado como prova concreta da perda de poder de compra, promessa de reduzir tributos para baixar preços |
| Soberania e integridade | Interesse nacional acima de pressão externa dos EUA, queda do desmatamento na Amazônia, gestão do caso Banco Master como falha regulatória herdada | Negociação direta com Washington contra tarifas, Banco Master e fraudes no INSS como marca de corrupção do entorno do governo, soberania reformulada como segurança do dia a dia |
Quadro elaborado por A Iskra a partir de reportagem sobre horário eleitoral e cobertura temática das duas campanhas, fontes no expediente. É leitura editorial dos eixos mais recorrentes, e não um levantamento de conteúdo publicitário oficial.
O que esse quadro indica
Lula fala principalmente de gestão e comparação histórica. Flávio fala de segurança, preço e corrupção, temas que respondem ao que o eleitor sente no dia a dia. É a mesma diferença de linguagem observada no restante desta edição, agora detalhada tema a tema, associação que reforça a hipótese central da newsletter sem substituir a pesquisa qualitativa necessária para comprovar o mecanismo.
Sem material suficiente, o PT aposta na força da rua
O problema de execução que esta edição já vinha registrando ganhou contornos mais precisos ao longo da semana. Em 10 de setembro, o presidente do PT, Edinho Silva, admitiu um erro de planejamento na produção de material de campanha: descentralizar a impressão para cada estado não funcionou. Faltou adesivo, bandeira e panfleto em estados fortes para o partido, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ceará, com relatos piores no Norte e no Rio Grande do Sul. Markus Sokol, fundador do PT, resumiu o problema na própria capital paulista, maior colégio eleitoral do país: faltava panfleto de Lula, enquanto material de candidato proporcional sobrava, contraste direto com o que o mesmo Edinho Silva dizia em abril, quando afirmava a campanha 90% organizada nos estados.
Foi nesse cenário que o PT chamou, para este domingo, 13 de setembro, um dia nacional de mobilização batizado de Dia 13 com Lula, com atos simultâneos em 26 estados. O presidente discursou em Florianópolis, a militância ocupou rua em cidades como Olinda, e a primeira-dama Janja conclamou o partido a se fazer presente em todo o país. O momento faz sentido: a campanha de Flávio vem construindo vantagem no ambiente digital, e ocupar rua com militância organizada é o recurso clássico do PT para compensar, com presença física, uma disputa de linguagem que ainda não está vencendo nas redes.
Vale reconhecer o que esse domingo prova. Apesar da dispersão registrada nesta edição, a militância do PT segue capaz de dar o tom de uma campanha quando é chamada, e quem acompanha o partido sabe que essa capilaridade já ajudou a reverter resultados que pareciam decididos em ciclos anteriores. O desafio é de direção: transformar essa presença de rua na mesma linguagem que faltou ao restante da semana.
Por que isso importa para a leitura desta edição
Convocar a militância para a rua é reconhecer, na prática, um diagnóstico simples: o PT ainda não encontrou a linguagem que vence nas redes e tenta compensar isso com o que sempre soube fazer melhor, mobilizar gente de carne e osso. As quatro pesquisas desta semana apontam para o avanço de Flávio. Se a militância que ocupou 26 estados neste domingo se somar, dentro de uma narrativa única, à evidência do caso Dark Horse e às fragilidades de coalizão de Flávio, o resultado possível vai de Lula voltar a crescer até, no mínimo, deter o avanço do adversário. Sem essa combinação, a rua sozinha não entrega vantagem eleitoral.
O que fica desta edição
O Brasil precisa de um tipo específico de polarização, o confronto entre duas visões de país discutidas com clareza. É isso que se perde quando a disputa vira contagem de engajamento digital ou de manchete acumulada contra o adversário, sem que nenhum dos dois lados diga por que merece o voto de quem ainda hesita.
O diagnóstico dentro do PT já existe, o próprio presidente reclama abertamente da estagnação dos seus números. O que ainda falta é traduzir os números de governo para a mesma linguagem que Flávio já fala todos os dias, a do receio real de quem está decidindo o próprio voto agora. Enquanto um lado fala de segurança no bolso e na rua, o outro ainda fala, majoritariamente, de resultado de gestão. São dois idiomas diferentes disputando o mesmo eleitor, e por enquanto só um dos dois campos parece ter percebido isso.
Essa é a régua até outubro: quem consegue transformar diagnóstico correto em linguagem que o eleitor indeciso reconhece como sua, e não quem simplesmente acumula mais manchete negativa contra o adversário. Até aqui, é Flávio quem está passando nesse teste, e é por isso que o segundo turno virou disputa de verdade.
A lição vale além da disputa presidencial. Mandatos e pré-candidaturas em qualquer nível enfrentam a mesma escolha: apostar num argumento de cada vez ou construir repertório que fale a linguagem de quem decide o voto por último, um estudo de caso para quem faz comunicação política fora do páreo presidencial.
Esta análise fecha na noite de domingo, 13 de setembro, mesmo dia em que o PT foi para a rua em 26 estados, prova de que ainda existe no país uma parcela da população disposta a sair de casa por Lula. Até esse horário, porém, a campanha não tinha convertido essa disposição em narrativa capaz de conectar essa militância ao eleitorado que ainda hesita. O resultado, até aqui, é uma campanha com gente nas ruas e um discurso que ainda não chegou às telas com a mesma força.
A régua até outubro
A disputa do segundo turno já não se decide pelos números da pesquisa, decide-se pela língua que cada campanha fala com o eleitor indeciso. Ganhar essa disputa exige falar a língua de quem ainda hesita, em vez de repetir para ele o currículo do governo.
Patrick Paraense, editor de A Iskra.
05 · Caixa de ferramentas
Sua última peça passaria nesses quatro testes?
Releia a peça mais recente da sua campanha ou do seu mandato e responda com sinceridade a cada pergunta abaixo.
| Teste | Pergunta |
|---|---|
| 1 · Empate x vantagem | Sua peça separa empate técnico de vantagem numérica na mesma frase, ou deixa a sensação de que um lado já ganhou? As quatro pesquisas desta semana estão dentro da margem de erro, e dizer só metade da verdade também distorce a leitura |
| 2 · Ausência é dado | Quando um instituto historicamente presente, como Quaest ou Genial/Quaest, fica fora de uma rodada, você registra a ausência, ou finge que ela não aconteceu? A ausência também é informação sobre a disputa |
| 3 · Aprovação antecipa | Você trata aprovação de governo como o dado que antecipa a eleição, ou só comenta o número quando ele já virou manchete? Aprovação costuma se mover antes da intenção de voto |
| 4 · Medo específico | Antes de aprovar essa peça, alguém perguntou a que medo específico do eleitor ela responde? Entregar o mesmo argumento para todos os públicos é confundir alcance com persuasão |
Um exemplo prático desta edição
Errado: “pesquisa surpreende e mostra Lula na frente”, ignora que a diferença está dentro da margem de erro em três dos quatro institutos da semana. Certo: “pesquisa aponta Lula à frente, dentro da margem de erro”, frase que resiste quando a rodada seguinte virar o número, e é isso que sustenta a credibilidade de quem assina a peça.
O que WhatsApp, Reels e tempo de tela mudam na sua pauta
O Radar de Públicos mostrou onde cada campo perde e ganha terreno. Esta seção fecha o ciclo, com dados de comportamento digital para decidir em que canal e formato produzir a resposta.
64,8%
Dos smartphones brasileiros têm o WhatsApp na tela inicial
91,6%
Do engajamento das campanhas no Instagram veio de Reels em 2026
+3h por dia
Tempo médio da Geração Z em redes sociais
0
É quanto a lei permite vender ou ceder bases de contato de eleitores
O WhatsApp está em 64,8% das telas iniciais de smartphones no Brasil, alta de 53% em um ano — é o app mais presente do país e o canal com mais restrição legal de consentimento. Já 91,6% do engajamento das campanhas no Instagram em 2026 veio de Reels, com 69,9% das publicações: vídeo curto virou piso mínimo de qualquer produção semanal. A Geração Z, faixa que lidera o consumo de vídeo curto, passa mais de 3 horas por dia em redes sociais, e conteúdo para esse público se decide nos três primeiros segundos. A Resolução TSE 23.610/2019 exige consentimento prévio para comunicação direcionada — não é permitido vender ou ceder bases de contato de eleitores.
| Uso |
|---|
| Grupo de apoiadores que pediu para entrar rende mais do que lista comprada |
| Resposta rápida a boato local tem mais efeito do que disparo massivo genérico |
| Canal direto de liderança territorial fortalece capilaridade, mas não substitui mídia paga |
Como usar a segmentação do Radar de Públicos nesta semana
Segmentar mensagem por público é prática legítima de comunicação. Microtargeting que manipula emoção ou esconde a origem não é, e a transparência é a linha entre as duas. No público evangélico e na renda média, terreno mais hostil desta rodada, teste linguagem de segurança econômica antes de repetir o argumento de gestão. Onde a folga é maior, mulheres e renda baixa, reforce presença constante em vez de conteúdo pontual.
06 · Melhor e pior da semana
Uma linguagem que se simplificou, uma narrativa que não se impôs
O balanço desta edição recai sobre uma mudança de linguagem que já aparece nas pesquisas e sobre uma narrativa de ataque que a semana inteira não encontrou o alvo certo.
Melhor · Mudança de linha de Flávio Bolsonaro
Ao longo da semana, Flávio reduziu o espaço do discurso de soberania nacional e de outras bandeiras mais abstratas do repertório bolsonarista, substituindo-as por peças mais diretas, que dialogam com o senso comum do eleitor indeciso em linguagem mais simples. É um ajuste de comunicação que preserva o conteúdo político de fundo e ajuda a explicar o avanço que as quatro pesquisas desta semana registram para a candidatura.
Pior · Dispersão do PT no ataque a Flávio
A campanha de Lula segue sem impor uma narrativa de ataque eficiente contra Flávio, e quando tenta, mistura o vocabulário do discurso político com aquilo que efetivamente tem penetração na sociedade. O sintoma mais claro é a própria fuga do caso Banco Master registrada nesta edição, justo quando a evidência mais nova do caso, o núcleo Dark Horse, oferecia argumento mais robusto e ainda disponível para uso.
As duas faces revelam o mesmo critério em ação. Quem já fala a língua de quem decide o resultado avança, quem ainda fala a língua de quem já decidiu o próprio voto se dispersa. Flávio ajustou a linguagem a essa exigência, o PT ainda não encontrou a versão da sua narrativa capaz de fazer o mesmo.
O que aplicar na sua comunicação esta semana
Antes de aprovar a próxima peça da sua campanha ou do seu mandato, pergunte se ela fala a língua de quem ainda decide o voto ou a língua de quem já o decidiu. A semana mostra que essa distinção pesa mais no resultado do que o volume de conteúdo produzido.
Expediente
Expediente e fontes
Esta edição reúne uma varredura do noticiário político da semana, o mapeamento das pesquisas nacionais divulgadas na mesma janela, o recorte por perfil de eleitor da própria rodada Datafolha e uma leitura comparada das duas campanhas de comunicação, apoiada em reportagem verificada sobre agenda, atos de rua e o andamento dos casos Banco Master e Dark Horse. As duas restrições permanentes do cliente foram observadas integralmente, sem uso de dados dos institutos Gerp ou Indexa/Broadcast, que ainda não têm validação e reconhecimento nacional consolidados.
Editor de A Iskra. Patrick Paraense.
Publicação. Troika Comunicação, Política e Inteligência.
Pesquisa, redação e análise. Equipe editorial de A Iskra.
Edição 05. Fechamento em 14 de setembro de 2026, apuração até a noite de 13/09.
Veículos consultados nesta edição
Gazeta do Povo, Poder360, CNN Brasil, Exame, JOTA, Agência Brasil, Conjur, Revista Oeste, CanalMyNews, Metrópoles, Correio Braziliense, Revista Fórum, Portal da Capital, Agência Pública, CartaCapital, Fundação Perseu Abramo, Brasil de Fato, Brasil247, A Notícia do Vale, Congresso em Foco, O Povo, Jovem Pan, Portal Democrata, Estado de Minas, O Seringal, Brasil em Folhas, Revista Piauí, Diário Carioca, AtualMT, BH24Horas, O Tempo, Tribuna de Jundiaí, Quenty, Mobile Time, Opinion Box, FGV Comunicação Rio, Núcleo de Performance, Tribunal Superior Eleitoral. A relação indica consulta editorial, não concordância com os enquadramentos publicados.
Pesquisas e registros TSE
- BTG/Nexus · 08/09, registro BR-06790/2026, rejeição e avaliação de governo
- Meio/Ideia · 09/09, registro BR-07935/2026, rejeição
- AtlasIntel · 10/09, registro BR-01452/2026, avaliação de governo e quebra completa de primeiro turno
- Datafolha · 11/09, registro BR-01833/2026 (registrada em 05/09), campo de 8 a 10/09, avaliação de governo, quebra completa de primeiro turno, recorte por perfil de eleitor usado no Radar de Públicos e módulo específico sobre avaliação do STF, este último coberto por Jovem Pan, CartaCapital e O Povo
- Quaest e Genial/Quaest não divulgaram rodada entre 8 e 13/09, a mais recente é de 07/09 (registro BR-01720/2026), citada aqui só como referência histórica
- A série Genial/Quaest de 16 pontos (agosto/2025) a 5 pontos (fevereiro/2026), citada em O Tom da Semana, tem base no CNN Brasil e na própria Quaest
- O cenário Datafolha de 21/08 (Lula 47%, Flávio 43%), citado no Radar, vem do Poder360
Fontes do panorama institucional e eleitoral
Decisões judiciais e TSE. Caso Renan Santos, validação do TSE em 9/09, com histórico em Gazeta do Povo (09/09), Conjur (01/09) e CanalMyNews (31/08). Caso Dark Horse, inclusão de Flávio como investigado no STF e orientações de Eduardo Bolsonaro, Agência Brasil e CNN Brasil (11/09); cancelamento em Presidente Prudente, Diário Carioca (13/09); repasses de Vorcaro ao fundo Havengate, Revista Piauí (01/09). Decisão da 16ª Vara Cível de Brasília de fevereiro sobre o núcleo financeiro do caso Master, Gazeta do Povo e JOTA. Crise Mendonça x Moraes, Revista Oeste (12/09) e Agência Brasil (05/09).
Institutos de pesquisa. Pesquisa BTG/Nexus sobre terceira via, campo de 24 a 26/07, replicada por Tribuna de Jundiaí (28/07). Precedente da estratégia de visibilidade presidencial, Quaest de abril de 2025.
Pesquisa de mercado e comportamento digital. WhatsApp em 64,8% das telas iniciais de smartphones no Brasil, ante 53% um ano antes, Super Panorama Mobile Time/Opinion Box (06/2026). Reels concentrando 91,6% do engajamento e 69,9% das publicações de campanha no Instagram em 2026, FGV Comunicação Rio. Tempo médio de tela da Geração Z acima de 3 horas diárias, Núcleo de Performance (2026). Exigência de consentimento prévio para comunicação eleitoral direcionada, Resolução TSE 23.610/2019, Conjur (07/2026).
Agência e cobertura jornalística. Nova gestão de comunicação de Cury sob a agência Comunica Brasil, Portal da Capital (04/09). Caminhada de Cury em Copacabana em 7 de setembro, Agência Pública (07/09). Agenda de Ronaldo Caiado no desfile cívico-militar de Goiânia em 7 de setembro, BH24Horas (07/09). Agenda de Romeu Zema em Sete Lagoas sem ato conjunto com Mateus Simões, O Tempo (09/09). Leitura comparada das três candidaturas menores de direita, Gazeta do Povo (29/07). Núcleo de campanha de Lula e vazamentos internos, Brasil247 e A Notícia do Vale (05/09). Distância calculada de Tarcísio de Freitas em relação a Flávio, avaliações do Centrão, Brasil247 (08/09). Estrutura personalista e familiar do bolsonarismo, Revista Fórum (06/09). Roteiro eleitoral bifurcado do PT, Congresso em Foco. Narrativas de campanha, eixos de Lula, JOTA e Revista Fórum (10/09), eixos de Flávio, Metrópoles (07/09) e Portal Democrata (13/09), comparação dos seis eixos, Gazeta do Povo (29/07). Migração das publicações do PT e do PL sobre o caso Master antes e depois da investigação da Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner, AtualMT, com apuração complementar sobre menções digitais por Quenty, com dados da Datrix. Erro de planejamento e centralização da logística, declaração do presidente do PT, Poder360 (10/09). Falta de material em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ceará, declaração de Markus Sokol, Exame (10/09). Falta de material no Norte e no Rio Grande do Sul e vídeo institucional mal coordenado, O Seringal (09/09). Organização da campanha por estado em abril, Poder360 (26/04). Mobilização Dia 13 com Lula, Poder360 (09/09) e Brasil247 (13/09), atos em Florianópolis e Olinda, Estado de Minas (13/09).
Nota metodológica
Os percentuais reproduzem os números publicados pelos institutos e pela cobertura jornalística. O cálculo de distância para maioria de votos válidos é de autoria de A Iskra. Hipóteses sobre estratégia, em O Tom da Semana, são leitura editorial identificada como tal. A relação de fontes segue hierarquia deliberada, decisão judicial e TSE primeiro, instituto de pesquisa em seguida, agência e cobertura jornalística por último.
Expediente editorial
Publicação: A ISKRA, newsletter de comunicação política. Produção e edição: Troika Marketing. Edição: Volume 5. Fechamento: 14 de setembro de 2026.
Análise, sistematização, cálculo e interpretação editorial produzidos pela equipe da Troika Marketing para a ISKRA. Os resultados de pesquisa pertencem aos respectivos institutos, as médias, classificações e leituras estratégicas são elaboração própria desta edição.
A Iskra · Newsletter
Receba a Iskra antes de todo mundo
Pesquisa eleitoral, leitura de narrativa e recomendação prática de comunicação — direto na sua caixa de entrada a cada nova edição, sem precisar acompanhar o noticiário o dia inteiro.
