A Iskra · Volume 3 · Agosto de 2026
A disputa nacional vista pelos territórios
A campanha sob pressão e o voto visto pelos estados: pesquisas nacionais, o painel estadual da Quaest, as seis sabatinas do Jornal Nacional e o novo problema da inteligência artificial na campanha presidencial
39% · 33%
Lula e Flávio no 1º turno, BTG/Nexus 31/8
46% · 45%
Empate técnico no 2º turno
11%
Augusto Cury salta de 2% e assume o 3º lugar
23 estados + DF
Cobertos pelo painel estadual da Quaest

Sobre esta edição
Apresentação
Agosto terminou com uma eleição nacional comprimida em poucos pontos e um país politicamente dividido por territórios. Pesquisas nacionais mostram uma disputa estreita entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto o painel estadual da Quaest revela a geografia real do voto, a autonomia das eleições para governador e os grupos sociais que sustentam cada candidatura.
Esta edição está organizada em seis frentes. O Radar de Pesquisas cruza os dois levantamentos nacionais da semana, examina a ascensão de Augusto Cury a 11% e detalha o painel estadual da Quaest, isolado do painel nacional por usar amostras de natureza estatística diferente. O Trendômetro acompanha as agendas de Lula e Flávio, a disputa pelo enquadramento das seis sabatinas do Jornal Nacional e um novo problema da campanha: vídeos gerados por inteligência artificial que já simulam apoio político real. A Caixa de Ferramentas propõe três testes práticos para a semana seguinte, e o Melhor e Pior da Semana aplica a régua das sabatinas aos seis candidatos.
A propaganda eleitoral no rádio e na televisão começou em 28 de agosto, dentro do próprio campo da pesquisa mais recente desta edição — cedo demais para isolar seu efeito sobre a intenção de voto. Nossa leitura evita dois exageros simétricos: tratar a distância nacional curta como empate garantido e tratar qualquer oscilação isolada como mudança de tendência.
Leitura central
A distância nacional está mais curta, mas o mapa estadual revela territórios com composições políticas e sociais muito distintas. Quando a diferença nacional é curta, cada agenda territorial passa a cumprir duas funções: mobiliza a base local e projeta, ao mesmo tempo, a imagem nacional de quem pretende atravessar fronteiras.
23 estados + DF
Cobertura do painel estadual da Quaest
22.578
Entrevistas na base agregada do painel
6
Sabatinas de presidenciáveis no Jornal Nacional
01 · Resumo da semana
A campanha ficou mais apertada e mais dura
As pesquisas aproximaram os dois líderes, as sabatinas expuseram limites de preparo e a disputa territorial passou a orientar as agendas. A rodada BTG/Nexus de 31 de agosto conta uma história mais complexa do que uma simples confirmação de vantagem: Lula recuou de 41% para 39% e Flávio Bolsonaro caiu de 37% para 33%. Como Flávio perdeu mais, a distância entre os dois passou de quatro para seis pontos, e o espaço aberto foi ocupado por Augusto Cury, que saltou de 2% para 11% e assumiu sozinho o terceiro lugar. O confronto direto, por sua vez, praticamente não se mexeu, e um ponto continua separando os líderes nas duas rodadas.
Lula depende de margens largas no Nordeste, do desempenho entre mulheres e eleitores de menor renda e de conter perdas no Sudeste. Flávio Bolsonaro concentra força no Sul, em parte do Norte e entre segmentos mais identificados com o conservadorismo. A passagem por Alagoas mostrou que sua campanha reconhece a necessidade de atravessar essa fronteira ao reunir militância de rua, empresários e lideranças religiosas na mesma agenda.
As seis entrevistas do Jornal Nacional colocaram a televisão no centro da campanha durante quase toda a semana. Expuseram diferenças de preparo, propostas ainda pouco detalhadas e imprecisões apontadas pelas checagens. Também reabriram uma discussão sobre o próprio jornalismo: veículos progressistas questionaram temas, interrupções e diferenças de tratamento, enquanto grandes jornais e comentaristas enfatizaram precisão, viabilidade fiscal e comportamento sob pressão.
No ambiente digital, vídeos produzidos com inteligência artificial simularam eleitores e lideranças, alcançaram milhões de visualizações e chegaram ao TSE. A disputa passou a envolver também a verificação de quem realmente falou, de quem financiou e se a cena compartilhada existiu.
| O que vemos | O que significa |
|---|---|
| Distância nacional curta | A eleição está competitiva, mas ainda sem tendência consolidada |
| Territórios muito distintos | As campanhas precisam defender fortalezas e atravessar fronteiras |
| Sabatinas no centro do noticiário | Preparo e precisão passaram a dividir espaço com o enquadramento da mídia |
| IA e judicialização | Autenticidade e transparência tornaram-se temas da campanha |
Essas quatro linhas orientam a leitura das próximas semanas. A distância nacional só deixa de ser curta se uma das duas campanhas consolidar uma vantagem territorial que hoje ainda oscila entre rodadas. A propaganda eleitoral, iniciada em 28 de agosto, é a variável mais nova e a que menos tempo de campo acumulou até o fechamento desta edição. E o efeito das sabatinas sobre o voto continua sendo uma hipótese a confirmar, não um resultado já registrado nas pesquisas.
Empate nacional, mapa estadual dividido
A rodada BTG/Nexus de 31 de agosto registra Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno. No confronto direto, os levantamentos chegam a 46% a 45% e a 45% a 44%. Os dois institutos mantêm Lula numericamente à frente e registram empate técnico. A queda de quatro pontos de Flávio na série BTG/Nexus merece acompanhamento, mas uma rodada isolada ainda não define tendência.
O mapa estadual explica como resultados nacionais próximos podem nascer de distribuições territoriais muito diferentes. Lula conserva vantagens amplas no Nordeste. Flávio lidera nos três estados do Sul e em parte do Norte. No Sudeste, o maior conjunto de colégios eleitorais, as diferenças são pequenas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e mais claras no Espírito Santo.
As sabatinas deslocaram a disputa para o terreno do preparo. Zema e Caiado defenderam autoridade executiva, mas foram pressionados sobre execução e contas. Renan Santos ganhou circulação com propostas de ruptura que também expuseram riscos institucionais. Lula preservou a estatura presidencial e evitou nomear o adversário. Flávio buscou moderar a forma sem abandonar a anistia e os símbolos familiares. Cury apresentou uma linguagem de conciliação, com programa ainda pouco desenvolvido.
| Sinal | Leitura |
|---|---|
| Nacional | Lula à frente; distância curta nas duas pesquisas da semana |
| Territorial | Nordeste e Sul mantêm polarização oposta; Sudeste decide o peso |
| Governadores | Liderança presidencial não se transfere automaticamente às disputas estaduais |
| Sabatinas | Exposição aumentou; efeito eleitoral ainda precisa aparecer em novas rodadas |
Como ler esta edição
As seis seções que sempre compõem A Iskra aparecem sempre nesta ordem. O painel estadual da Quaest aparece sempre à parte do painel nacional, porque as duas pesquisas usam amostras diferentes — nenhuma tabela desta edição soma ou compara os dois diretamente. Nenhum ponto nasce de um dado isolado: cada um vem de pelo menos duas fontes ou dois momentos diferentes da mesma pesquisa.
Seis dias reorganizaram a conversa eleitoral
| Data | Movimento | Leitura política |
|---|---|---|
| 24 ago | BTG/Nexus reduz a diferença; Zema abre as sabatinas | A competitividade volta ao centro da cobertura |
| 25–27 ago | Quaest divulga grandes estados; Caiado é entrevistado | O Sudeste aparece equilibrado; a segurança domina a fala |
| 28–29 ago | Renan Santos vai à TV; começa o horário eleitoral | A candidatura ganha conhecimento ao propor rupturas |
| 30 ago | PoderData confirma distância curta; Lula é sabatinado | A defesa do governo encontra pressão sobre corrupção e contas |
| 30–31 ago | Flávio é entrevistado; Cury fecha a série de sabatinas | TV, anistia e busca de moderação se combinam; repercussão e ações no TSE crescem |
| 31 ago | Nova BTG/Nexus amplia a distância no primeiro turno | Lula marca 39%, Flávio 33%; segundo turno segue em 46% a 45% |
A principal mudança em relação à edição anterior foi a concentração da campanha. Antes, agendas, crises digitais e o debate da Band dividiam a atenção. Nesta semana, pesquisas estaduais e sabatinas ofereceram um roteiro diário. A televisão nacionalizou a conversa, embora os números revelem uma disputa profundamente territorial. A propaganda no rádio e na televisão começou em 28 de agosto e abriu uma nova etapa: programas e inserções passaram a disputar frequência, memória e capacidade de síntese. A rodada BTG/Nexus encerrada no dia 30 alcançou apenas os três primeiros dias dessa exposição — intervalo curto demais para medir efeito.
A cobertura também se fragmentou. Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, UOL e Terra enfatizaram precisão, contas, segurança e democracia. CartaCapital, Fórum, DCM, ICL, Brasil de Fato e GGN acompanharam os conflitos de narrativa e questionaram enquadramentos. Alma Preta e Pública trouxeram dimensões programáticas menos presentes no centro televisivo, como racismo, gênero, segurança, inteligência artificial e representação. Balaio Nordeste, Brasil de Fato Nordeste, Sul21, Agência Carta Amazônia e Amazônia Latitude integram o radar territorial permanente, para impedir que Nordeste e Amazônia sejam reduzidos a percentuais.
02 · Radar de pesquisas
Mesma ordem, diferenças reduzidas
Primeiro turno · três levantamentos da semana
| Pesquisa | Campo | Amostra | Lula | Flávio | Diferença |
|---|---|---|---|---|---|
| BTG/Nexus · 24 ago | 21–23 ago | 2.006 | 41% | 37% | Lula +4 |
| BTG/Nexus · 31 ago | 28–30 ago | 2.005 | 39% | 33% | Lula +6 |
| PoderData/Aya · 27 ago | 23–26 ago | 2.400 | 38% | 35% | Lula +3 |
Primeiro turno · BTG/Nexus, 24 e 31 de agosto
Na série BTG/Nexus, Lula oscilou de 41% para 39% e Flávio passou de 37% para 33%. Os dois recuaram, mas Flávio recuou mais, e foi essa diferença que abriu a distância de quatro para seis pontos. A leitura correta é que Lula perdeu menos do que Flávio nesta rodada, não que sua candidatura tenha crescido. A PoderData/Aya, com campo intermediário, registrou diferença de três pontos e reforça a necessidade de acompanhar séries, questionários e momentos distintos.
Na rodada de 31 de agosto, Augusto Cury alcançou 11% e assumiu sozinho o terceiro lugar. Ronaldo Caiado marcou 5%, Renan Santos 3%, e Romeu Zema e Samara Martins, 1% cada. Cury tinha 2% em 24 de agosto — um salto de nove pontos. Parte dessa exposição aconteceu durante o próprio campo da pesquisa, que também reuniu os últimos dias das sabatinas do Jornal Nacional e o início da propaganda eleitoral; ainda não há como isolar o peso de cada fator.
A terceira colocação ganha peso estratégico quando uma candidatura chega a dois dígitos: pode retardar o voto útil, influenciar a agenda e ampliar a capacidade de negociação. Para Lula, a fragmentação afasta a maioria absoluta no primeiro turno; para Flávio, preserva a perspectiva de segundo turno.
Fontes: BTG/Nexus, registros BR-09028/2026 e BR-08900/2026; PoderData/Aya, registro BR-04974/2026, margem geral de 2 pontos.
Quem é o eleitor que levou Cury a 11%
Um levantamento da Ativaweb DataLab sobre o ambiente digital, reproduzido por MyNews, O Globo, Veja e Metrópoles, associa parte da ascensão de Cury à conversa nas redes e aponta sinais de crescimento artificial de seguidores — o que levanta a suspeita de que parte do engajamento digital do candidato seja inorgânico. A Iskra trata esse dado como hipótese a monitorar, não como explicação fechada: a Ativaweb DataLab mede comportamento digital, não intenção de voto, e a própria suspeita de seguidores comprados ainda não foi verificada de forma independente.
| Perfil do eleitorado | Cury |
|---|---|
| Eleitores de 16 a 24 anos | 22% |
| Eleitores com ensino superior | 17% |
| Eleitores com ensino fundamental | 3% |
| Eleitores não polarizados | 19% |
| Rejeitam Lula e Bolsonaro | 19% |
| Votaram em Jair Bolsonaro em 2022 | 13% |
| Votaram em Lula em 2022 | 7% |
O crescimento de Cury chama atenção porque acontece dentro de uma disputa historicamente polarizada. É mais forte entre jovens, entre eleitores com ensino superior e chega a 19% do eleitorado não polarizado — público que nenhuma das duas candidaturas principais consegue reunir sozinha. Ao mesmo tempo, sua base tem inclinação um pouco maior para quem rejeita o campo petista do que para quem rejeita o bolsonarismo, e reúne quase o dobro de ex-eleitores de Bolsonaro em relação a ex-eleitores de Lula em 2022. Esse desenho ainda não autoriza classificar a candidatura como uma terceira via consolidada, mas já é suficiente para tratá-la como variável relevante na distribuição do primeiro turno.
A terceira força apareceu, mas ainda não sabemos de onde ela vem
A cobertura reproduziu a leitura de que o digital acaba de mandar um recado para a política tradicional: Augusto Cury já tem 11%. A terceira via não nasceu numa estrutura partidária — nasceu na disputa pela atenção. Ignorar Cury preserva o enquadramento de disputa polarizada, mas arrisca surpresa se o movimento se confirmar.
Fontes: BTG/Nexus, registro BR-08900/2026; análise demográfica do UOL sobre a rodada de 31 de agosto; levantamento de ambiente digital da Ativaweb DataLab, reproduzido por MyNews, O Globo, Veja e Metrópoles.
Um ponto separa os líderes no segundo turno
| Instituto | Lula | Flávio | Diferença | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| BTG/Nexus · 24 ago | 46% | 45% | Lula +1 | Empate técnico |
| BTG/Nexus · 31 ago | 46% | 45% | Lula +1 | Empate técnico |
| PoderData/Aya | 45% | 44% | Lula +1 | Diferença numérica de 1 ponto |
A diferença de um ponto se repete nas duas rodadas BTG/Nexus e na PoderData/Aya. O empate técnico no segundo turno contrasta com o afastamento observado no primeiro. Parte dos eleitores das demais candidaturas, dos brancos e dos indecisos se redistribui no confronto direto e mantém Flávio competitivo mesmo depois da queda registrada na primeira etapa.
A estabilidade do segundo turno impede leituras triunfalistas. Flávio recuou no primeiro turno, mas preservou 45% no confronto direto, e sua base segue tão consolidada quanto a de Lula: 85% dos eleitores de cada um dizem que a decisão já está tomada, patamar próximo dos 88% e 86% registrados em 24 de agosto. Um segundo turno tão comprimido aumenta o peso da rejeição, da confiança e da capacidade de formar maioria social.
O que observar a seguir
Consolidação. Os eleitores que dizem não mudar de candidato permanecem no mesmo patamar?
Rejeição. Algum dos polos reduz resistência de forma consistente?
Terceiras vias. Alguma candidatura supera a dispersão atual?
Território. O equilíbrio do Sudeste se mantém?
Flávio ultrapassa Lula na rejeição pela primeira vez
A rodada BTG/Nexus de 31 de agosto confirma Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno, com o confronto direto empatado tecnicamente em 46% a 45%. A rejeição, porém, deixou de ser igual entre os dois. Lula segue com 49%, o mesmo patamar de 24 de agosto; Flávio subiu de 48% para 50% e passou a ter, pela primeira vez na série, a maior rejeição entre os líderes.
| Candidato | Rejeição 24 ago | Rejeição 31 ago | Variação |
|---|---|---|---|
| Lula | 49% | 49% | Estável |
| Flávio Bolsonaro | 48% | 50% | +2 pontos |
Os dois seguem tecnicamente empatados entre os mais rejeitados, dentro da margem de erro, mas o número de Flávio se move na mesma direção da sua queda no primeiro turno — reforço da leitura de uma semana de desgaste, não de simples oscilação estatística.
| Rodada | Consolidação geral | Lula | Flávio | Cury |
|---|---|---|---|---|
| 24 ago | 80% | 88% | 86% | — |
| 31 ago | 78% | 85% | 85% | 59% |
A queda de dois pontos na consolidação geral acompanha a chegada de Cury à disputa. Seu eleitorado, com apenas 59% de voto definido, é o mais disponível para mudança entre as candidaturas que já alcançam dois dígitos. Lula e Flávio mantêm núcleos praticamente do mesmo tamanho, 85% cada, o que explica por que a queda de Flávio no primeiro turno não desmontou sua competitividade no segundo. A polarização segue consolidada nos dois polos; o espaço de disputa está fora dela.
Fontes: BTG/Nexus, registros BR-09028/2026 e BR-08900/2026; cobertura da Agência Estado/UOL sobre a rejeição de 31 de agosto.
Cada candidatura vence em um Brasil diferente
| Segmento | Lula | Flávio |
|---|---|---|
| Mulheres | 53% | 38% |
| Homens | 40% | 53% |
| 16 a 24 anos | 41% | 50% |
| 60 anos ou mais | 54% | 40% |
| Ensino fundamental | 59% | 36% |
| Ensino superior | 38% | 50% |
| Católicos | 51% | 41% |
| Evangélicos | 35% | 58% |
| Até 1 salário mínimo | 65% | 27% |
| Acima de 5 salários mínimos | 37% | 54% |
| Rejeição de Lula é maior entre | % | Rejeição de Flávio é maior entre | % |
|---|---|---|---|
| Homens | 55% | Mulheres | 56% |
| 60 anos ou mais | 56% | 16 a 24 anos | 54% |
| Sem religião | 66% | Evangélicos | 62% |
| Nordeste | 59% | Sul | 63% |
Os padrões se espelham, já que cada candidatura é mais forte exatamente onde a rejeição ao adversário é maior — o que ajuda a explicar por que a polarização social é tão estável quanto a eleitoral. A tarefa da comunicação de Lula é ampliar a conversa sem deslocar o centro de gravidade da candidatura, traduzindo políticas econômicas e sociais para jovens, homens, evangélicos e eleitores de maior renda. O problema de Flávio está menos na fidelidade da sua base e mais na capacidade de expandi-la: a rejeição de 50%, agora superior à de Lula, dificulta essa expansão, sobretudo entre mulheres, eleitores sem religião e o Nordeste.
Fonte: BTG/Nexus, 2.005 entrevistas por telefone, campo de 28 a 30 de agosto, margem geral de 2 pontos, registro BR-08900/2026. As margens por segmento são superiores à margem geral da amostra.
O painel estadual abre uma segunda camada da eleição
A rodada da Quaest permite observar, no mesmo território, a disputa para governador e a preferência presidencial publicada em cada estado. As candidaturas à Presidência convivem com alianças, lideranças e conflitos locais: a dianteira de Lula ou de Flávio Bolsonaro não transfere automaticamente votos ao candidato a governador mais próximo. O painel inclui apenas as unidades nas quais a Quaest publicou intenção presidencial — o Pará ficou fora por falta desse dado.
34,6%
Lula no agregado do painel estadual da Quaest
31,1%
Flávio no agregado do painel estadual da Quaest
3,5 pontos
Distância numérica entre os dois
Nas 22.578 entrevistas das unidades com cenário presidencial, Lula soma 7.809 entrevistas equivalentes e Flávio, 7.022 — diferença projetada de 787 registros, ou 3,5 pontos. Outros candidatos, brancos, nulos e indecisos somam 34,3%. O quadro reúne amostras estaduais sem corrigir o peso eleitoral de cada unidade; por isso, serve à comparação territorial e não estima o voto nacional.
Regra de leitura desta seção
Esta projeção é uma síntese descritiva do painel estadual da Quaest. Ela nunca é somada, combinada ou comparada ponto a ponto com o painel nacional multi-institutos das páginas anteriores, por se tratar de amostras de natureza estatística diferente.
A vantagem de Lula se concentra no Nordeste, enquanto Flávio apresenta seus melhores desempenhos no Sul e em parte do Norte e do Centro-Oeste. O Sudeste reúne diferenças pequenas nos três maiores colégios eleitorais e, por isso, concentra parcela decisiva da incerteza.
Painel estadual da Quaest publicado entre 24 e 30 de agosto. Fechamento editorial em 31 de agosto de 2026. Registro TSE por estado pendente de consolidação.
Cinco regiões, cinco composições da disputa
| Região | UFs | Amostra | Lula | Flávio | Diferença |
|---|---|---|---|---|---|
| Norte | 6 | 4.824 | 29,7% | 39,5% | Flávio +9,8 |
| Nordeste | 3 | 2.508 | 52,1% | 20,5% | Lula +31,6 |
| Sudeste | 7 | 6.318 | 23,8% | 25,5% | Flávio +2,1 |
| Sul | 4 | 3.516 | 29,4% | 31,6% | Flávio +15,9 |
| Centro-Oeste | 4 | 5.412 | 25,5% | 31,7% | Flávio +6,2 |
O Nordeste apresenta a estrutura mais favorável a Lula: a liderança atravessa os estados pesquisados e é especialmente ampla no Maranhão, no Rio Grande do Norte, em Pernambuco e em Sergipe. No Sul, o movimento se inverte — Flávio lidera os três estados, com força maior em Santa Catarina e no Paraná. O Norte reúne o maior equilíbrio em número de estados e a maior assimetria de intensidade de voto entre as cinco regiões: Lula aparece à frente no Amazonas, no Amapá e no Tocantins; Flávio lidera em Rondônia, no Acre e em Roraima, mas com vantagens proporcionalmente maiores, o que favorece a região a Flávio por 9,8 pontos no agregado.
O Sudeste concentra a maior incerteza e o maior peso eleitoral. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro estão separados por um ou dois pontos, enquanto o Espírito Santo favorece Flávio por sete. No Centro-Oeste, Lula aparece numericamente à frente apenas no Distrito Federal; Flávio lidera Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, onde alcança sua maior vantagem regional.
Fonte: relatórios estaduais publicados pela Quaest entre 24 e 30 de agosto de 2026. Médias descritivas ponderadas pelas amostras estaduais; não correspondem a pesquisas regionais.
Governos e alinhamentos — Norte e Nordeste
| Estado | Líder ao governo | Alinhamento | Lula | Flávio |
|---|---|---|---|---|
| Amazonas | Omar Aziz | Lula | 38% | 33% |
| Amapá | Dr. Furlan | Neutro | 36% | 33% |
| Rondônia | Marcos Rogério | Neutro | 25% | 45% |
| Acre | Alan Rick | Flávio | 25% | 42% |
| Roraima | Arthur Henrique | Flávio | 17% | 52% |
| Tocantins | Professora Dorinha | Flávio | 37% | 32% |
| Pernambuco | Raquel Lyra | Neutro | 54% | 19% |
| Bahia | ACM Neto | Neutro | 50% | 17% |
| Rio Grande do Norte | Allyson Bezerra | Neutro | 54% | 20% |
| Maranhão | Eduardo Braide | Neutro | 58% | 20% |
| Alagoas | Renan Filho | Neutro | 44% | 29% |
| Sergipe | Fábio Mitidieri | Lula | 53% | 19% |
| Paraíba | Lucas Ribeiro | Lula | 50% | 21% |
A classificação considera apoio público, coligação ou vínculo político verificável; a sigla partidária, isoladamente, não define alinhamento. A categoria neutro reúne candidaturas sem apoio presidencial inequívoco, nomes de terceira via e alianças estaduais que atravessam a polarização nacional. No Nordeste, Lula lidera com folga para presidente, mas seus aliados não ocupam automaticamente o primeiro lugar nas corridas estaduais — avaliação administrativa, presença municipal, alianças e trajetória pessoal continuam organizando o voto para governador. No Norte, a disputa presidencial é mais fragmentada: Amazonas, Amapá e Tocantins oferecem vantagem numérica a Lula; Rondônia, Acre e Roraima favorecem Flávio.
Para Lula, a prioridade regional é consolidar o Nordeste sem tratar a vantagem como patrimônio adquirido. Para Flávio, Alagoas oferece um caso relevante de palanque competitivo em território majoritariamente lulista.
Governos e alinhamentos — Sudeste, Sul e Centro-Oeste
| Estado | Líder ao governo | Alinhamento | Lula | Flávio |
|---|---|---|---|---|
| São Paulo | Tarcísio de Freitas | Flávio | 29% | 30% |
| Minas Gerais | Cleitinho Azevedo | Flávio | 30% | 31% |
| Rio de Janeiro | Eduardo Paes | Lula | 29% | 31% |
| Espírito Santo | Ricardo Ferraço | Neutro | 30% | 37% |
| Paraná | Sergio Moro | Flávio | 23% | 41% |
| Santa Catarina | Jorginho Mello | Flávio | 20% | 45% |
| Rio Grande do Sul | Luciano Zucco | Flávio | 28% | 34% |
| Distrito Federal | Celina Leão | Flávio | 28% | 26% |
| Mato Grosso | Wellington Fagundes | Flávio | 26% | 43% |
| Mato Grosso do Sul | Eduardo Riedel | Neutro | 27% | 33% |
| Goiás | Daniel Vilela | Neutro | 20% | 27% |
No Sudeste, a proximidade presidencial amplia a importância das campanhas estaduais como redes de mobilização. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro estão em empate técnico. Tarcísio de Freitas e Cleitinho Azevedo oferecem palanques identificados com Flávio; Fernando Haddad, Patrus Ananias e Eduardo Paes ampliam a presença do campo de Lula. No Sul, Flávio combina vantagem presidencial com candidaturas estaduais conservadoras bem posicionadas; Requião Filho e Juliana Brizola funcionam como pontos de apoio para Lula em ambiente adverso.
O contraste entre as duas páginas mostra por que a campanha nacional não pode usar a mesma agenda em todo o país. No Norte e no Nordeste, o desafio de Lula é administrar aliados que não se declaram. No Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste, o desafio de Flávio é converter governadores próximos em estrutura de campanha, não apenas em proximidade ideológica.
Fonte: relatórios estaduais publicados pela Quaest entre 24 e 30 de agosto de 2026.
03 · Trendômetro · Campanhas
Lula defendeu governo, território e presença institucional
Lula atravessou a semana tentando converter a posição de presidente em argumento de campanha. Compromissos oficiais, atos políticos e entrevistas combinaram autoridade institucional, defesa das políticas sociais e mobilização partidária. O risco aparece quando a agenda do governo ocupa o espaço necessário para responder às cobranças do presente, especialmente custo de vida, segurança e percepção de melhora econômica.
Na entrevista ao Jornal Nacional, Lula falou a partir da experiência acumulada, evitou citar Flávio Bolsonaro e procurou impedir que o adversário organizasse a conversa. A escolha preservou a posição presidencial e produziu leituras distintas: para os apoiadores, evitou dar centralidade ao bolsonarismo; para os críticos, deixou respostas pouco diretas em temas que exigiam contraste concreto entre os projetos. A Revista Fórum avaliou que corrupção e ajuste fiscal receberam espaço desproporcional, enquanto políticas públicas e desigualdade ficaram comprimidas — leitura que expressa uma disputa editorial legítima sobre os temas que a televisão escolhe transformar em teste de competência presidencial.
| Ativo da semana | Risco exposto | Próximo teste |
|---|---|---|
| Autoridade institucional e memória de governo | Parecer defensivo diante das cobranças atuais | Transformar entregas em percepção concreta |
| Nordeste e mulheres como bases relevantes | Dependência de vantagens já conhecidas | Evitar deslocamento consistente do Sudeste |
| Disciplina diante do adversário | Silêncio interpretado como evasão | Produzir contraste sem abandonar o tom presidencial |
A leitura da Iskra é que Lula preservou a estatura institucional, mas ainda precisa tornar a campanha uma conversa mais presente. A memória oferece identidade e confiança; o voto será decidido também pela capacidade de explicar o que muda na vida das pessoas nos próximos quatro anos. Há também um risco de calendário: quanto mais a comunicação se apoiar em resultados acumulados, maior a exposição a qualquer dado que piore no curto prazo.
Flávio mirou o Nordeste sem largar o bolsonarismo
A passagem de Flávio Bolsonaro por Alagoas condensou sua estratégia de expansão: carreata, encontro com empresários e participação em uma convenção das Assembleias de Deus aproximaram três públicos relevantes — militância de rua, setor produtivo e redes religiosas — e reconheceram, ao mesmo tempo, uma fragilidade concreta, já que é no Nordeste que Lula acumula suas maiores vantagens.
A tentativa de moderação enfrenta o peso da própria herança política. Na sabatina do Jornal Nacional, Flávio escreveu na mão as palavras “Mudança”, “Futuro” e “7 de setembro”, repetindo um recurso utilizado pelo pai — cena que resume a tensão da candidatura entre falar de renovação e recorrer aos símbolos que organizaram o bolsonarismo. A promessa de respeitar o resultado eleitoral conviveu com a admissão de que o candidato divulgou uma informação incorreta sobre o sistema de votação.
| Ativo da semana | Risco exposto | Próximo teste |
|---|---|---|
| Base mobilizada e presença no Sul | Dependência do legado familiar | Apresentar autonomia política |
| Aproximação com empresários e igrejas | Baixo desempenho entre mulheres e no Nordeste | Converter acenos em proposta verificável |
| Mensagem de mudança | Anistia e urnas retomam conflitos anteriores | Sustentar moderação sob pressão |
Nesta edição, a avaliação é que Flávio possui um piso eleitoral sólido e uma geografia favorável bem definida. Seu teto dependerá da capacidade de convencer eleitores que não desejam a volta permanente aos conflitos do governo Bolsonaro. A promessa de futuro ainda disputa espaço com a anistia, a defesa familiar e a retomada de conflitos institucionais — quando esses temas dominam a cobertura, propostas econômicas e sociais perdem visibilidade.
A mídia disputou o significado da semana, não apenas os fatos
A cobertura dos grandes jornais privilegiou pressão sobre contas públicas, segurança, corrupção, democracia e viabilidade das propostas — Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, UOL e Terra ajudaram a estabelecer a agenda factual de cada entrevista. Nos veículos progressistas, parte da análise deslocou a atenção para o comportamento dos entrevistadores, a seleção temática e a diferença de tratamento entre as candidaturas: a Revista Fórum questionou a distribuição das perguntas feitas a Lula e Flávio; DCM, Brasil 247 e ICL acompanharam a reação política e digital do campo progressista; análises reproduzidas pelo UOL e por comentaristas da Globo destacaram problemas de precisão na entrevista de Flávio.
Essa divergência deve ser analisada sem escolher previamente qual campo está certo. Uma entrevista pode expor imprecisões de um candidato e, ao mesmo tempo, conter escolhas editoriais discutíveis. O papel da Iskra é separar essas camadas: primeiro, verificar a resposta; depois, avaliar a pergunta, a insistência dos jornalistas e o espaço concedido para o desenvolvimento do raciocínio.
| Enquadramento | Pergunta editorial | Cuidado necessário |
|---|---|---|
| Desempenho do candidato | Respondeu, desviou ou reformulou a pergunta? | Examinar o conjunto, não apenas o corte viral |
| Precisão factual | A afirmação possui evidência? | Usar checagem e fonte primária |
| Conduta dos entrevistadores | A pressão foi proporcional e equivalente? | Comparar tempo, temas e repreguntas |
| Repercussão | Que leitura permaneceu depois da transmissão? | Distinguir circulação de representatividade |
A inteligência artificial deixou de ser recurso e virou problema eleitoral
A Agência Pública e o Aos Fatos localizaram vídeos de eleitores gerados por inteligência artificial que somavam 7,4 milhões de visualizações no TikTok. O conteúdo sintético já não aparece apenas como sátira ou experimento: simula apoio político, fabrica testemunhos e cria a impressão de uma adesão social que pode nunca ter existido. Na mesma semana, o TSE marcou o julgamento de uma ação contra o vídeo que simulou uma manifestação de Jair Bolsonaro na convenção de Flávio — decisão que poderá estabelecer parâmetros para casos semelhantes.
O ambiente jurídico passou a integrar a comunicação cotidiana. O campo de Lula acionou a Justiça contra conteúdos que relacionavam o presidente ao crime. A campanha de Flávio contestou declarações de Lula e pediu direito de resposta. Decisões, representações e pedidos de remoção passaram a ser usados também como peças de mobilização para as bases.
| Risco | Efeito político | Indicador para acompanhar |
|---|---|---|
| Depoimentos sintéticos | Falsa percepção de apoio espontâneo | Visualizações, identificação e remoções |
| Imitação de lideranças | Transferência indevida de autoridade | Origem, financiamento e rotulagem |
| Judicialização diária | Campanha substituída por conflito processual | Direitos de resposta e decisões do TSE |
| Cortes fora de contexto | Repercussão superior ao conteúdo integral | Alcance do recorte e retenção do tema |
O ponto central, para esta edição, não está em proibir toda utilização de inteligência artificial. Está em impedir que a tecnologia destrua a possibilidade de o eleitor reconhecer quem falou, quem financiou e se o acontecimento existiu. Transparência de origem passa a ser um requisito democrático da comunicação eleitoral. Para o jornalismo, a consequência é prática: um conteúdo de grande alcance já não pode ser tratado como evidência apenas porque circula em várias plataformas. Para as campanhas, o dever é ainda maior — o uso de recursos sintéticos deve ser informado de maneira visível e jamais pode fabricar apoio popular, fala de adversário ou acontecimento político inexistente.
A mesma régua para as seis candidaturas
A entrevista no Jornal Nacional reúne audiência ampla e oferece às candidaturas um tempo raro de exposição contínua. A avaliação considera clareza da mensagem, resposta às perguntas, consistência programática, precisão factual, comportamento sob pressão e capacidade de dialogar além da base já convencida.
| Dimensão | Pergunta de avaliação |
|---|---|
| Clareza | A mensagem principal pôde ser compreendida e lembrada? |
| Resposta | O candidato enfrentou a pergunta ou deslocou o assunto? |
| Programa | A proposta apresentou objetivo, instrumento e viabilidade? |
| Precisão | Os dados e exemplos resistiram à checagem? |
| Pressão | O comportamento reforçou ou enfraqueceu a imagem pretendida? |
| Ampliação | A fala alcançou públicos além da base já mobilizada? |
Romeu Zema e Ronaldo Caiado
Zema estruturou a entrevista em torno de privatizações, reforma previdenciária, juros e segurança. Defendeu a atualização automática da idade de aposentadoria pela expectativa de vida, apoiou anistia aos envolvidos em 8 de janeiro e apresentou a gestão de Minas Gerais como credencial executiva. A checagem confirmou a reversão do resultado fiscal e avanços em transparência, mas contestou a ideia de queda contínua da criminalidade e a descrição da dívida mineira. Um lapso verbal sobre programas “contra as mulheres” dominou parte da repercussão.
Caiado priorizou segurança nas fronteiras, defendeu anistia ampla aos envolvidos em 8 de janeiro e cobrou, de forma genérica, investigação sobre financiamento de campanha. Quando pressionado sobre ajuste fiscal e idade mínima de aposentadoria, evitou apresentar parâmetros concretos. A checagem confirmou a elevada aprovação de sua gestão, mas classificou como incorreta a comparação entre a Europol e uma força policial com poder próprio de prisão. A resposta “não estamos em uma banca examinadora” teve repercussão negativa por transferir o foco da proposta para o confronto com os entrevistadores.
Leitura comparativa
Zema construiu uma narrativa nacional a partir do liberalismo econômico e da gestão mineira. Caiado concentrou autoridade na segurança pública e na trajetória política. Ambos encontraram dificuldade quando a entrevista exigiu parâmetros de execução, custos e coordenação com outros entes federativos.
Renan Santos e Lula
Renan Santos apresentou uma candidatura de ruptura, com defesa de regime de exceção em áreas dominadas pelo crime organizado e abertura de debate sobre armas nucleares. A fala foi rápida, organizada e orientada a produzir contraste — deu visibilidade às propostas, mas também expôs custos institucionais, jurídicos e diplomáticos pouco desenvolvidos. A checagem confirmou a referência histórica à entrada do Brasil no BRICS, mas contestou afirmações sobre competências exclusivas dos estados no enfrentamento à violência.
Lula usou a experiência presidencial para defender resultados de governo e preservar uma posição acima do confronto direto, evitando mencionar Flávio Bolsonaro pelo nome. A Agência Lupa apontou imprecisões sobre PIB, Roberta Luchsinger, a formulação de “fome zero duas vezes” e o número de institutos federais criados.
Ponto de atenção para a semana seguinte
Renan Santos precisará demonstrar que suas propostas de maior impacto resistem a um segundo nível de escrutínio, com detalhamento institucional e jurídico que a sabatina não exigiu. Lula, por sua vez, terá de decidir até quando a estratégia de não nomear o adversário permanece sustentável, à medida que a propaganda eleitoral e os debates futuros reduzem o espaço para evitar o confronto direto.
Flávio Bolsonaro e Augusto Cury
Flávio buscou combinar continuidade do bolsonarismo com uma apresentação mais moderada. A anistia aos envolvidos em 8 de janeiro ocupou o centro programático e ligou a candidatura à defesa política e jurídica da família. Na crítica que fez a essa sabatina dois dias depois, Ronaldo Caiado nomeou explicitamente Daniel Vorcaro e o Banco Master ao cobrar mais transparência sobre financiamento de campanha.
Augusto Cury apresentou uma narrativa de conciliação e saúde emocional, combinada a propostas sobre cargos comissionados, Bolsa Família, apostas e desigualdade salarial. A checagem confirmou os números aproximados de cargos comissionados e diferença salarial, mas contestou a ideia de dívida individual ao nascer e pediu contexto para Bolsa Família e apostas.
Ponto de atenção para a semana seguinte
O teste para Flávio é se a cobrança de Caiado sobre Vorcaro e o Banco Master força a campanha a responder sobre financiamento antes que o tema se fixe no noticiário. O teste para Cury é se o salto para 11% se repete na próxima pesquisa; sem confirmação, segue sendo hipótese, não tendência.
Fontes das sabatinas: entrevistas integrais do Jornal Nacional, checagens da Agência Lupa e cobertura jornalística consultada até 31 de agosto de 2026.
A vitória no primeiro turno ficou mais distante dos dois líderes
A Constituição exige mais da metade dos votos válidos para encerrar a eleição no primeiro turno. A simulação abaixo retira brancos, nulos e indecisos de cada rodada e recalcula o peso dos candidatos sobre os votos atribuídos — é um medidor de distância, não uma previsão de desfecho.
| Pesquisa | Lula nos válidos | Falta para 50% | Flávio nos válidos | Falta para 50% |
|---|---|---|---|---|
| BTG/Nexus · 24 ago | 44,6% | 5,4 pontos | 40,2% | 9,8 pontos |
| BTG/Nexus · 31 ago | 41,9% | 8,1 pontos | 35,5% | 14,5 pontos |
A fotografia de 31 de agosto torna o primeiro turno mais distante para os dois líderes. Lula permanece numericamente mais próximo da maioria absoluta, mas sua distância aumentou de 5,4 para 8,1 pontos nos votos válidos; para Flávio, o movimento foi mais intenso, de 9,8 para 14,5 pontos, puxado sobretudo pela fragmentação criada pela ascensão de Cury a 11%. O dado, porém, não autoriza concluir que Lula esteja mais perto de vencer, já que a mesma pesquisa mantém o segundo turno em 46% a 45%, revelando duas disputas simultâneas na mesma rodada.
No painel estadual da Quaest, faltam 15,4 e 18,9 pontos, respectivamente, para Lula e Flávio chegarem a 50% da amostra agregada do painel — a projeção estadual usa o total agregado da amostra, pois não há uma base nacional uniforme de votos válidos, e por isso nunca é somada, combinada ou comparada ponto a ponto com as linhas da BTG/Nexus, de natureza estatística diferente.
Uma pesquisa feita em transição de ambiente
A propaganda no rádio e na televisão começou na sexta-feira, 28 de agosto, dentro do próprio campo da nova BTG/Nexus, realizado entre os dias 28 e 30. No mesmo intervalo, Flávio foi sabatinado no dia 28 e Cury no dia 29, na etapa final das entrevistas do Jornal Nacional. A pesquisa, portanto, registra uma campanha em transição de ambiente, mas não permite isolar o efeito da televisão, das sabatinas, das redes sociais e do noticiário sobre o resultado.
Fontes: relatórios integrais BTG/Nexus de 24 e 31 de agosto e projeção editorial das pesquisas estaduais da Quaest.
04 · Caixa de ferramentas
Três testes para levar desta edição para as redes
Um método, uma ferramenta, um jeito de aplicar o que a edição já mostrou, pensado para quem faz comunicação política no dia a dia.
| Teste | Como aplicar |
|---|---|
| 1 · Fonte completa | Marque o registro TSE, o instituto e o campo em toda peça que citar pesquisa, inclusive nas redes |
| 2 · Distância real | Meça a distância para 50% dos votos válidos, não só o percentual bruto, ao comunicar cenário de primeiro turno |
| 3 · Origem verificada | Verifique a publicação original de todo clipe que pareça sintético antes de compartilhar ou responder a ele |
O primeiro teste responde a um problema recorrente desta edição: pesquisas diferentes, com campos e amostras diferentes, circulam nas redes sem essa informação e facilitam comparações indevidas entre rodadas que não são comparáveis. O segundo usa a mesma lógica da Perspectiva Eleitoral — falar em “Lula tem 39%” diz menos do que “Lula está a 8,1 pontos de fechar no primeiro turno”, porque a segunda formulação comunica esforço restante e resiste melhor à checagem. O terceiro responde ao Trendômetro de Ambiente Digital: antes de repostar ou usar como prova qualquer vídeo que pareça favorável demais à própria candidatura, vale procurar a publicação original, identificar quem financiou o impulsionamento e comparar o conteúdo com registros autênticos.
05 · Melhor e pior da semana
Renan Santos teve o melhor desempenho comunicativo; Caiado, a maior fragilidade exposta
Balanço aplicado às seis sabatinas do Jornal Nacional, com a régua de avaliação descrita na seção anterior.
Melhor momento · Renan Santos
A desenvoltura e o ritmo da entrevista foram reconhecidos por múltiplas coberturas, mesmo com imprecisões que a checagem identificou sobre competências dos estados na segurança pública. O critério de desempate diante de Lula e Flávio foi a capacidade de ampliar base — único ponto em que Renan superou com clareza os dois líderes.
Pior momento · Ronaldo Caiado
A resposta “não estamos em uma banca examinadora” concentra o problema da semana. Diante de cobrança sobre precisão factual, a fala transferiu o foco para o confronto com os entrevistadores. Some-se o erro confirmado pela Lupa na comparação entre a Europol e uma força policial brasileira, e o saldo é a maior fragilidade exposta entre as seis sabatinas.
Augusto Cury não entra nesta comparação; sua sabatina dividiu a crítica entre o candidato e a condução dos âncoras. Critério completo na seção 03 desta edição.
06 · O tom da semana
O Brasil parece mais estreito de longe e mais dividido quando visto por dentro
A eleição nacional cabe em poucos pontos. Sua composição territorial revela forças políticas e sociais muito diferentes. Pesquisas, mapa estadual e sabatinas descrevem uma eleição competitiva, ainda sem direção consolidada. Lula preserva a dianteira nacional e as margens mais amplas no Nordeste. Flávio Bolsonaro se apoia no Sul, em parte do Norte e em pequenas vantagens no Sudeste. A televisão acrescentou contraste e exposição. O sentido político aparece quando território, avaliação do governo, rejeição, alianças e comunicação são observados em conjunto.
Na Iskra, a posição editorial é construída nesse cruzamento. Pesquisa registra um momento, cobertura seleciona acontecimentos e análise organiza relações entre os fatos. Quanto menor a diferença, maior deve ser o cuidado com certezas prematuras, enquadramentos convenientes e conclusões produzidas para confirmar preferências anteriores.
O encerramento da semana aponta uma campanha mais competitiva e mais exigente. Lula precisa preservar a coalizão social que sustenta sua dianteira e recuperar iniciativa entre jovens, homens e setores médios. Flávio precisa demonstrar autonomia, reduzir rejeições e apresentar uma agenda de governo capaz de alcançar mulheres e famílias de menor renda. As próximas pesquisas deverão ser lidas ao lado da propaganda, das agendas territoriais e da circulação digital.
A redação · A Iskra
Expediente
Expediente e fontes
Editor de A Iskra. Patrick Paraense.
Publicação. Troika Comunicação, Política e Inteligência.
Pesquisa, redação e análise. Equipe editorial de A Iskra.
Edição 03. Fechamento em 31 de agosto de 2026.
Veículos checados nesta edição
Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Poder360, UOL, Terra, CNN Brasil, CartaCapital, Brasil de Fato, Brasil de Fato Nordeste, DCM, Revista Fórum, ICL Notícias, MyNews, Opera Mundi, Brasil 247, GGN, Sul21, Agência Pública, The Intercept Brasil, Alma Preta Jornalismo, Notícia Preta, Balaio Nordeste, Agência Carta Amazônia e Amazônia Latitude. A relação indica consulta editorial e não concordância com os enquadramentos publicados.
Pesquisas, alinhamentos e checagem
- BTG/Nexus · 24 e 31 de agosto (registros BR-09028/2026 e BR-08900/2026)
- PoderData/Aya · primeiro turno, segundo turno e rejeição (registro BR-04974/2026)
- Quaest · geografia eleitoral e painel estadual, relatórios de 24 a 30 de agosto, registros TSE por estado pendentes de consolidação
- Sabatinas e checagem: Jornal Nacional, Agência Lupa, Revista Fórum, DCM, CartaCapital
- Ambiente digital: Agência Pública, Aos Fatos, UOL, Terra
- Radar territorial: Balaio Nordeste, Brasil de Fato Nordeste, Agência Carta Amazônia, Amazônia Latitude, Sul21
Nota de responsabilidade
Os resultados eleitorais desta edição reproduzem os dados divulgados pelos institutos. Oscilações dentro da margem de erro exigem cautela quando analisadas isoladamente. As comparações temporais respeitam a série de cada instituto. Menções digitais medem atenção e podem reunir apoio, crítica, ironia e circulação jornalística, nunca voto confirmado. Resultados de pesquisa pertencem aos respectivos institutos; médias, classificações e leituras estratégicas são elaborações próprias desta edição.
Base numérica e contexto editorial atualizados em 31 de agosto de 2026. Os resultados representam a fotografia dos períodos de campo informados por cada instituto.
Expediente editorial
Publicação: A ISKRA, newsletter de comunicação política. Produção e edição: Troika Marketing. Edição: Volume 3. Fechamento: 31 de agosto de 2026.
Análise, sistematização, cálculo e interpretação editorial produzidos pela equipe da Troika Marketing para a ISKRA. Os resultados de pesquisa pertencem aos respectivos institutos, as médias, classificações e leituras estratégicas são elaboração própria desta edição.
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