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A Iskra · Volume 6 · Outubro de 2026

A força que reelegeu Lula precisa participar do governo

A mobilização das ruas e das redes deve se transformar em organização que permaneça depois da eleição

Multidão com camisetas e bandeiras vermelhas ocupa uma avenida durante ato político.

Por Patrick Paraense

O Brasil tem motivos para celebrar Lula. Sua reeleição para um quarto mandato reconhece uma trajetória de combate à fome e de ampliação de direitos que mudou a vida de milhões de brasileiros. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, o presidente contou com uma mobilização que atravessou o país e contribuiu decisivamente para a virada.

Poucas lideranças conseguiriam aproximar pessoas com posições tão diferentes. A vitória reuniu quem aprovava o governo, quem confiava pessoalmente em Lula e quem, mesmo mantendo críticas, reconheceu a urgência de impedir o retorno do bolsonarismo à Presidência, agora fortalecido no Congresso.

Celebrar exige discutir os erros que colocaram a reeleição sob risco. Em conversas com amigos, cheguei a brincar que, se vencêssemos, seria uma “vitória culposa”, quando não há intenção de vencer. A ironia expressava a angústia diante de decisões que pareciam contrariar o próprio objetivo. Na minha avaliação, faltaram direção, organização e uma leitura adequada da força adversária.

Desde a pré-campanha, a condução política subestimou Flávio Bolsonaro. A campanha confiou demais na liderança de Lula, na rejeição ao sobrenome Bolsonaro e no reconhecimento das realizações do governo. Enquanto isso, o adversário consolidava alianças e ampliava sua presença nos estados, apoiado em uma estrutura de comunicação construída durante anos.

O primeiro turno expôs o erro dessa avaliação. O avanço da direita na Câmara e no Senado agravou o risco de um novo governo Bolsonaro. A vitória parlamentar do PL tem causas nacionais e estaduais, mas também exige avaliar a capacidade do campo progressista de articular a disputa presidencial às eleições para o Congresso.

O próprio Lula reconheceu que aquela havia sido sua campanha mais desorganizada desde 1989. O trabalho de militantes e dirigentes locais merece reconhecimento. Quem comandou a estratégia precisa responder pelas decisões. O presidente precisa participar dessa reflexão, pois ocupava o centro do governo e da campanha.

O problema começou antes da eleição. O terceiro mandato recuperou políticas públicas e retomou investimentos em um Estado enfraquecido pelos governos Temer e Bolsonaro. Faltou acompanhar esse esforço com uma estratégia permanente de organização social e enfrentamento à extrema direita, sobretudo depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro.

O governo falou muito sobre seus resultados e ouviu menos do que precisava. Houve conselhos, conferências e espaços de participação, mas sua existência não assegurou que as demandas orientassem as prioridades. O governo organizou sua comunicação em torno do que desejava demonstrar e deu pouca atenção às razões da insatisfação popular.

Os indicadores econômicos não mostram tudo o que uma família enfrenta. Conseguir emprego representa um avanço e pode continuar sendo insuficiente para pagar o aluguel e fazer as compras. A renda cresce, mas as parcelas e os juros consomem o dinheiro disponível. A inflação diminui, enquanto os preços permanecem altos para muita gente. Responder à insatisfação apenas com estatísticas pode transmitir a impressão de que o governo pretende corrigir o sentimento da população.

As conquistas dos governos petistas também ampliaram expectativas. Quem chegou à universidade ou passou a consumir bens antes inacessíveis começou a desejar outras possibilidades. Os filhos dessas famílias cresceram com referências diferentes. Muitos jovens, embora mais escolarizados, não encontram trabalho compatível com sua formação. Nas redes, o sucesso alheio se torna uma referência diária para quem luta para pagar as contas.

As bets e as jornadas exaustivas fazem parte desse problema, mas não o explicam por completo. As pessoas querem morar melhor, acompanhar os filhos e ter perspectivas de ascensão. A esquerda precisa oferecer proteção e oportunidades, com educação que garanta condições de permanência, acesso a consultas e tratamentos no SUS e políticas culturais presentes nos bairros e nas comunidades.

A campanha demorou a reconhecer esse afastamento. O primeiro turno tornou o risco impossível de ignorar e despertou setores desanimados ou distantes. A defesa da democracia ganhou prioridade sobre divergências legítimas. O resultado adverso desencadeou uma reação que contribuiu decisivamente para a vitória. Isso não torna a derrota necessária; mostra que havia uma disposição para agir que poderia ter sido mobilizada antes.

No Norte, no Nordeste, no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul, caminhadas e iniciativas comunitárias levaram a campanha às capitais, às periferias e às cidades do interior. Jovens, movimentos populares, sindicatos, artistas e cidadãos sem vínculo partidário assumiram tarefas ao lado de militantes do PT e de outras organizações. As grandes manifestações também dependeram de quem conversou com um vizinho ou ajudou a vencer o desânimo de alguém próximo.

Vista aérea, à noite, de uma multidão com bandeiras vermelhas e luzes de celulares acesas ao longo de uma avenida.
Foto — Mobilização popular à noite, com luzes de celulares acesas ao longo da avenida.

A mobilização foi além da estrutura da campanha oficial e ganhou caminhos próprios. Nas redes, a articulação conduzida por André Janones ampliou a atuação dos apoiadores e o alcance das atividades de rua. Brasileiros no exterior também se mobilizaram, expressando seu vínculo com o destino do país.

O dia da votação foi tenso. Problemas de transporte e chuvas motivaram pedidos de prorrogação das duas candidaturas, com abrangências diferentes. A extensão do horário, comunicada quando muitas seções já estavam encerradas, provocou dúvidas e interrompeu temporariamente o recebimento dos boletins de urna. A votação prosseguiu apenas nas seções ainda abertas. O TSE retomou a apuração e confirmou a reeleição.

Flávio anunciou que não reconheceria o resultado e buscaria a anulação. Os problemas operacionais devem ser esclarecidos, e os questionamentos, examinados pela Justiça. Esses problemas, porém, não constituem, por si só, prova de fraude.

Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, uma diferença superior a 4,4 milhões de votos. A vantagem surpreendeu diante das expectativas anteriores, mas os quase 60 milhões de votos do adversário mostram a força da disputa que permanece.

A abstenção caiu de 21,08% para cerca de 19,2%. O aumento do comparecimento acompanhou a reação das últimas semanas, embora não permita atribuir todos os novos votos a Lula nem medir isoladamente o efeito das mobilizações. A confiança no presidente, a rejeição ao adversário e as mudanças da campanha também ajudam a explicar a virada.

A vitória tem alcance internacional. A aproximação de Flávio com Donald Trump colocava em disputa a orientação externa brasileira. As escolhas do Brasil, a maior economia da América Latina, afetam toda a região. A permanência de Lula preserva uma referência para a cooperação latino-americana e a articulação do Sul Global.

Após a reeleição, Lula afirmou: “Vamos mudar o jeito de governar este país”. E assumiu outro compromisso: “Vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões”. Também anunciou maior espaço para a comunicação digital e conversas mais frequentes com a população.

Escutar o povo é estratégico. Falar mais nas redes precisa vir acompanhado de canais que recebam críticas, produzam respostas e influenciem decisões. Essa escuta deve passar pelos conselhos e pelas organizações comunitárias e alcançar quem está fora dos espaços habituais da esquerda.

Defendo que o quarto mandato supere a conciliação como orientação central e faça da mobilização popular uma forma de governar. Tornar a tributação mais justa, enfrentar o endividamento e a precarização do trabalho e ampliar os serviços públicos exigem escolhas sobre prioridades e recursos. A regulação das plataformas precisa ser discutida por seus efeitos sobre o trabalho, a informação e os direitos. A participação deve ajudar a construir essas respostas e acompanhar sua execução.

Essa relação exige autonomia. Movimentos sociais precisam ter liberdade para apoiar, propor e cobrar, inclusive quando suas reivindicações incomodarem o governo. Uma base convocada apenas para defender decisões já tomadas perde a capacidade de contribuir e se afasta.

O PT precisa voltar a tomar banho de povo e compreender que as periferias de hoje são diferentes daquelas das décadas de 1980 e 1990. Mudaram as relações de trabalho, as referências culturais e as expectativas de vida. O partido precisa conhecer esse Brasil para reconstruir sua capacidade de representá-lo.

Isso exige dialogar com a população LGBTQIAPN+ sobre seus direitos e suas condições de vida, com quem trabalha por aplicativos e com quem empreende nas periferias. Compreender o desejo de abrir um negócio, conquistar autonomia e crescer faz parte dessa tarefa. A esquerda precisa aproximar essas aspirações da garantia de direitos, do acesso ao crédito e da proteção social. A juventude deve participar dessa construção e influenciar as decisões.

O resultado mostrou que uma parcela decisiva da sociedade deseja mudanças e recusou o caminho autoritário oferecido pelo bolsonarismo. A confiança em Lula reúne expectativas que vão além da continuidade do governo. Corresponder a elas exige rever prioridades e construir um programa que dialogue com as transformações do país.

Na minha avaliação, nenhuma outra liderança da esquerda latino-americana reúne hoje as condições de Lula para conduzir uma renovação programática que combine o combate às desigualdades com respostas às mudanças no trabalho, na tecnologia e nas aspirações da população. Seu quarto mandato pode aproximar a experiência histórica da esquerda das demandas de uma sociedade que mudou e contribuir para a renovação progressista na América Latina e em outras partes do mundo.

Lula e o PT precisam assumir essa tarefa, ouvir a sociedade e abrir espaço para novas lideranças. A mobilização das ruas e das redes deve se transformar em organização que permaneça depois da eleição. O balanço dos erros precisa orientar uma mudança na maneira de organizar, comunicar e decidir, assim como a atualização do programa da esquerda.

O momento é de catarse. A celebração tem a força de um grito que estava preso, de um Brasil que resiste ao autoritarismo e encontrou em Lula a possibilidade de seguir em frente. Há motivos para festejar, reconhecer quem tornou essa vitória possível e respirar depois de uma disputa tão dura.

Mas o primeiro turno deixou um aviso. Lula enfrentará um Congresso com forte presença da direita e da extrema direita, incluindo o PL e parlamentares que priorizam a exposição pessoal e relegam as necessidades da população. A direita mantém também uma presença expressiva nos governos estaduais, sem formar um bloco uniforme. Compreender suas diferenças será necessário para enfrentar resistências e negociar.

A experiência de negociação de Lula será indispensável, mas precisará estar acompanhada de organização popular. A pressão social pode alterar prioridades e elevar o custo político da resistência, embora não substitua a construção de maiorias no Congresso. Como o próprio Lula reconheceu, será preciso trabalhar com o Legislativo eleito e governar para todos.

A vitória eleitoral não nos deu hegemonia política. O bolsonarismo perdeu a Presidência e continua com força para bloquear mudanças e disputar os rumos do país. Vencemos uma batalha histórica. A disputa por um novo Brasil continua depois da campanha. Lula recebeu outra oportunidade de governar, e a esquerda tem a responsabilidade de construir com ele um caminho que corresponda à esperança das urnas. A força que o reelegeu precisa participar do governo.

Patrick Paraense, diretor-geral da Troika Marketing e filiado ao Partido dos Trabalhadores.

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