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A Iskra · Volume 4 · Setembro de 2026

Uma crise no Supremo e uma corrida mais apertada do que parece

O atrito entre André Mendonça e Alexandre de Moraes chega à campanha: Lula segue à frente sem crescer, o desgaste de Flávio Bolsonaro perde força, e o segundo turno chega a aparecer empatado ponto a ponto

36% · 29%

Lula e Flávio no 1º turno, Quaest 07/09

41% · 41%

Empate numérico exato no 2º turno, Quaest 07/09

7% a 10%

Augusto Cury estável em 3º lugar nas quatro pesquisas

6 pontos

Distância de Lula para vencer em 1º turno, votos válidos

Capa da edição Uma crise no Supremo e uma corrida mais apertada do que parece

Sobre esta edição

Apresentação

O atrito entre André Mendonça e Alexandre de Moraes já não cabe no Judiciário, chegou à campanha. No tabuleiro eleitoral, Lula segue à frente sem crescer, o desgaste de Flávio Bolsonaro perdeu força nesta semana, e o segundo turno chegou a aparecer empatado ponto a ponto numa das quatro pesquisas nacionais do período.

Esta edição cruza a crise Mendonça-Moraes e sua origem institucional, as quatro rodadas nacionais divulgadas entre 1 e 7 de setembro, a ascensão sem sinal de teto de Augusto Cury, a suspensão de Renan Santos pelo TSE e a leitura estratégica sobre o que a campanha de Lula precisa fazer para não deixar a dianteira parada virar dianteira em risco.

Leitura central

A campanha descobriu, nesta semana, que outubro também depende de uma disputa alheia, dentro do Supremo, e que a disputa que é sua, a eleitoral, está mais perto de uma decisão do que o discurso oficial admite.

1 a 7 de setembro

Período coberto por esta edição

4 rodadas nacionais

Quaest, Datafolha e PoderData/Aya

3

Institutos da semana

#O que aconteceu
01A crise Mendonça-Moraes reabre uma tensão antiga. Na percepção pública, cada ministro carrega hoje o rótulo do campo político que mais incomodou ao longo da carreira
02Na Quaest de 7 de setembro, Lula e Flávio empatam em 41% no segundo turno. Uma semana antes, a mesma pesquisa dava um ponto de vantagem a Lula
03O primeiro turno de Lula não avança em nenhuma das quatro rodadas da semana, e o desgaste de Flávio, mais acentuado no fim de agosto, perde velocidade
04O TSE suspende propaganda, debates e fundo eleitoral de Renan Santos por perfis de redes sociais não registrados na Justiça Eleitoral
Tabela Os quatro pontos que resumem a semana.

01 · Resumo da semana

Mendonça e Moraes, e a desconfiança que cada um carrega

A semana começou com um vazamento dentro do próprio Supremo e terminou pesando sobre o humor da campanha presidencial. Entender como uma coisa levou à outra passa por olhar a origem de cada ministro, não só o episódio mais recente.

Em 2 de setembro, o ministro André Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal com mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-executivo do Banco Master Daniel Vorcaro. O professor de direito constitucional Pedro Serrano chamou a quebra de sigilo de decisão ilegal e incomum, já que magistrados costumam ser investigados sob sigilo. Moraes revidou na mesma moeda e pediu a abertura de um inquérito contra a conduta de Mendonça, movimento que Serrano também considerou desproporcional. Na leitura do professor, as mensagens trazem indícios que merecem apuração em relação a Moraes, mas o caminho mais adequado seria afastá-lo do caso, e não abrir um inquérito formal contra o colega que tornou o episódio público.

O episódio expõe uma leitura que já circula há alguns anos e que vale desmontar com precisão, porque mistura origem institucional com conduta recente, e é exatamente essa mistura que confunde o público. Moraes foi indicado ao Supremo por Michel Temer em 2017, era filiado ao PSDB e não carrega nenhuma trajetória de proximidade com o PT ou com o lulismo. A associação que parte do eleitorado faz hoje entre ele e Lula nasce da conduta dos últimos anos, não da origem. Como presidente do TSE em 2022, relator dos inquéritos sobre o 8 de janeiro e relator do processo que condenou Jair Bolsonaro pelo golpe, Moraes se transformou no rosto do enfrentamento institucional ao bolsonarismo, e essa trajetória o aproximou, aos olhos de boa parte do eleitorado, do campo que mais se beneficia desse enfrentamento.

Mendonça caminha na direção oposta, e a diferença importa: a proximidade dele com o bolsonarismo não é só de origem, ela se confirma na conduta cotidiana. Foi advogado-geral da União e ministro da Justiça de Bolsonaro antes de ser indicado por ele ao Supremo em 2021, aprovado pelo Senado com a votação mais apertada da atual composição da Corte, 47 a 32. Levantamentos de veículos como Brasil de Fato e Gazeta do Povo já registraram, ao longo dos últimos anos, votos de Mendonça favoráveis a pautas caras a Bolsonaro, do fundo eleitoral ao pedido para afastar Moraes e Flávio Dino do julgamento do ex-presidente, em 2025. Um chegou à Corte sem vínculo partidário e construiu, na prática, uma reputação de proximidade com um lado. O outro já chegou filiado a esse lado.

60% · 14%

Reprovam/aprovam Moraes entre eleitores de Bolsonaro em 2022

62% · 10%

Aprovam/reprovam Moraes entre eleitores de Lula em 2022

O tamanho dessa associação entre Moraes e o campo de Lula aparece em pesquisa Datafolha, ainda que de 2024, sobre a avaliação do trabalho de Moraes no julgamento do 8 de janeiro. Entre eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, 60% reprovavam Moraes e 14% aprovavam. Entre eleitores de Lula, a proporção se invertia quase espelhada, 62% aprovavam e apenas 10% reprovavam. Poucos dados ilustram tão bem como uma trajetória profissional pode virar identidade política aos olhos de quem observa de fora.

O próprio entorno de Lula sabe disso. Reportagem da CNN Brasil de 2 de setembro mostra que a campanha reconhece a dificuldade de descolar a imagem do presidente da de Moraes, inclusive depois de um encontro simbólico entre Lula e o presidente do Senado na residência do ministro. Segundo a analista Jussara Soares, a avaliação interna é que essa proximidade preocupa, porque devolve à disputa presidencial um desgaste que Lula não criou e não controla.

Enquanto essa tensão institucional dominava o noticiário, a semana também teve o TSE suspendendo propaganda, debates e fundo eleitoral de Renan Santos por perfis não registrados, com efeito prático a partir de 1º de setembro, e teve o 7 de Setembro como vitrine antecipada de estratégia. Lula participou do desfile cívico-militar em Brasília, em tom institucional deliberadamente afastado de campanha. Flávio fez a aposta contrária, um ato na Avenida Paulista que reuniu milhares de pessoas ao longo de cinco quarteirões, com discurso duro contra Moraes, chamado de laranja podre que contamina o Supremo, ao lado de promessas de endurecimento penal. Participaram Tarcísio de Freitas, em tom mais moderado, Silas Malafaia, Ricardo Nunes, Bia Kicis e Nikolas Ferreira. Cury, terceira via em ascensão, dividiu o feriado entre entrevista à Jovem Pan e caminhada em Copacabana, longe do embate institucional.

Discurso institucional de um lado, confronto direto do outro, no mesmo feriado — esse contraste já diz muito sobre quem tenta ampliar coalizão e quem tenta consolidar base. E enquanto essa disputa simbólica ocupava as manchetes, o terreno eleitoral se movia num sentido que a próxima seção detalha com números: o segundo turno chegou a empatar ponto a ponto numa das quatro pesquisas da semana, sem que nenhuma delas mostrasse a dianteira de Lula em expansão.

Regra de leitura desta seção

Esta seção descreve percepção pública consolidada em pesquisa e reportagem, não um juízo sobre a independência dos dois ministros. Origem partidária e histórico de votos vêm de fontes jornalísticas verificáveis, listadas no expediente.

02 · Radar de pesquisas

Lula não cresce, Flávio perde fôlego no desgaste, e o segundo turno aperta

As quatro pesquisas nacionais divulgadas entre 1 e 7 de setembro contam uma história mais equilibrada do que a manchete de primeiro turno costuma sugerir. Lula segue na frente, mas parado. Flávio vinha perdendo pontos desde agosto, e essa perda perdeu força justamente nesta semana. E o cenário que mede a eleição de fato, o segundo turno, chegou ao empate exato numa das quatro rodadas. Quem acompanha corrida presidencial sabe que é aí, na comparação rodada a rodada de um mesmo instituto, que mora o dado que interessa, não na fotografia isolada de uma única pesquisa.

InstitutoDivulgaçãoCampoRegistro TSEAmostra
Quaest, 1ª rodada02/0930/08 a 01/09BR-07065/20262.004
Datafolha03/0901/09 a 03/09BR-03669/20262.002
PoderData/Aya03/0930/08 a 02/09BR-07561/20263.000
Quaest, 2ª rodada07/0903/09 a 06/09BR-01720/20262.004
Tabela As quatro pesquisas nacionais da semana.

Margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95% em todas as rodadas.

O primeiro turno não anda, para nenhum dos dois

A própria Quaest aplicou duas rodadas dentro da mesma semana, e a comparação entre elas é o dado mais direto sobre o ritmo real da disputa. Lula caiu de 37% para 36%. Flávio caiu de 30% para 29%. Nenhum dos dois cresceu, a distância entre eles se manteve fechada em sete pontos nas duas rodadas, e esse tipo de simetria costuma indicar estagnação de corrida, não avanço de um lado sobre o outro.

Primeiro turno, Quaest, comparação na mesma semana

Lula · 02/0937%
Lula · 07/0936%
Flávio · 02/0930%
Flávio · 07/0929%

Cenário estimulado com Marçal; escala até 65%.

O segundo turno é onde a disputa realmente aperta

Se o primeiro turno ficou parado, o segundo se moveu, e se moveu na direção de um empate. Na Quaest de 2 de setembro, Lula vencia Flávio por 42% a 41%, diferença de um ponto, já um empate técnico dentro da margem de erro. Cinco dias depois, na Quaest de 7 de setembro, o placar chegou a 41% a 41%, empate numérico exato. A Datafolha de 3 de setembro, no meio dessa janela, ainda mostrava Lula com vantagem um pouco maior, 46% a 44%. Colocadas lado a lado, as três rodadas desenham uma trajetória, não um ponto fora da curva.

InstitutoLulaFlávio BolsonaroLeitura
Quaest, 02/0942%41%Empate técnico
Datafolha, 03/0946%44%Vantagem dentro da margem
Quaest, 07/0941%41%Empate numérico exato
Tabela Segundo turno, três rodadas na mesma janela.

Na mesma rodada de 07/09, Lula aparece à frente nos outros quatro cenários testados pela Quaest, contra Cury (39% a 35%), Renan Santos (42% a 37%), Caiado (41% a 38%) e Zema (44% a 33%). Flávio é o único adversário que já chegou ao empate, e essa exclusividade é o dado que merece atenção, não o placar isolado. Fica a mesma cautela metodológica: é uma rodada da própria Quaest ante a rodada anterior, o que reduz risco de comparar institutos diferentes, mas ainda é cedo para tratar o movimento como tendência consolidada.

Quanto falta para vencer no primeiro turno

Há uma pergunta que a cobertura de pesquisa raramente faz, e que muda a leitura de qualquer corrida presidencial: quanto falta, exatamente, para vencer sem precisar de segundo turno? A Constituição exige mais da metade dos votos válidos, descontados brancos, nulos e abstenções, e aplicado à Quaest de 7 de setembro esse corte redesenha o retrato do primeiro turno.

CandidaturaQuaest 07/09
Lula (PT)36%
Flávio Bolsonaro (PL)29%
Outros seis candidatos17%
Brancos, nulos e indecisos17%
Tabela Primeiro turno, Quaest 07/09, cenário bruto.

43,9%

Lula nos votos válidos, Quaest 07/09

35,4%

Flávio nos votos válidos, Quaest 07/09

6 pontos · 15 pontos

Falta para Lula e para Flávio vencerem em 1º turno

Descontados os 17 pontos de brancos, nulos e indecisos (soma 99% por arredondamento do instituto), Lula soma 43,9% dos votos válidos e Flávio 35,4%. Ao presidente faltam cerca de 6 pontos para vencer em 4 de outubro sem passar por segundo turno; a Flávio faltam quase 15. Cálculo de A Iskra, metodologia no expediente.

03 · Trendômetro · Redes

Cury sobe, Renan perde palco digital

Uma candidatura ganhou terreno nas redes nesta semana, outra perdeu o direito de usá-las. Os dois movimentos nascem de decisões bem diferentes, mas ambos redefinem o que cada campanha consegue fazer daqui até outubro.

A ascensão de Cury segue sem sinal de teto

O crescimento de Augusto Cury, já registrado na Edição 03, se confirma nas quatro pesquisas desta semana. O candidato oscila entre 7% e 10% a depender do instituto e se mantém, nas quatro rodadas, isolado em terceiro lugar, o que já deixou de ser oscilação para virar padrão. Reportagem da CNN Brasil de 1º de setembro mostra que a campanha de Lula já reformula estratégia por causa disso, lendo a alta de Cury como recado do eleitor moderado sobre falta de propostas concretas. A resposta anunciada troca parte do ataque direto a Flávio por agenda propositiva em rádio e televisão, com três eixos declarados — exploração de minerais críticos, redução de dívida das famílias e geração de emprego por investimento — além de reforço no discurso sobre combate a facções criminosas.

Vale registrar o padrão histórico antes de tratar Cury como fenômeno inédito. Terceiras vias já ocuparam esse mesmo espaço em eleições presidenciais recentes sem romper o teto de dois dígitos baixos até a reta final. O fato consumado, e é isso que entra no Trendômetro, é que a presença estável de Cury em terceiro lugar já mudou o cálculo de comunicação dos dois líderes, que passaram a disputar abertamente o eleitorado que hoje está com ele.

Renan Santos perde perfis por falha de registro

Em 31 de agosto, o ministro do TSE Dias Toffoli suspendeu a propaganda eleitoral, a participação em debates e o repasse do fundo eleitoral a Renan Santos, depois de constatar que o candidato só informou dezesseis perfis em redes sociais doze dias depois de pedir o registro. Os perfis no TikTok, Instagram e YouTube foram bloqueados no Brasil a partir de 1º de setembro, embora sigam visíveis fora do país. O advogado Arthur Rollo chamou a decisão de censura e recorreu ao TSE. É o segundo problema da candidatura com o tribunal em poucas semanas, o suficiente para trocar a leitura de incidente isolado pela de compliance mal resolvido.

Por que isso é Trendômetro, não só política

O caso Renan Santos funciona como estudo de caso de comunicação digital: cada perfil precisa estar formalmente registrado antes de virar propaganda. Lição barata de aplicar e cara de ignorar.

04 · Caixa de ferramentas

Três testes para levar desta edição para as redes

Um método, uma ferramenta, um jeito de aplicar o que esta edição já mostrou no dia a dia de quem faz comunicação de campanha.

TesteComo aplicar
1 · Série própriaCompare sempre a mesma pesquisa com ela mesma ao longo do tempo antes de anunciar tendência. O empate desta semana só é confiável porque vem da Quaest contra a própria Quaest, não da comparação entre institutos diferentes
2 · Origem da autoridadeAo noticiar crise institucional, cite a origem de cada autoridade antes de repetir o rótulo que a opinião pública já colou nela. Às vezes a origem conta uma história bem diferente da percepção do momento
3 · Registro verificadoConfira o registro de perfis de candidato na Justiça Eleitoral antes de repostar qualquer conteúdo de campanha. O caso Renan Santos mostra, com clareza, o custo de deixar essa checagem para depois

05 · Melhor e pior da semana

O balanço recai sobre as duas respostas mais visíveis à instabilidade do noticiário

Melhor momento · Campanha de Lula, na leitura do momento de Cury

Ler a alta do avantista como recado do eleitor moderado, e reagir com agenda propositiva em vez de simplesmente radicalizar o ataque a Flávio, foi resposta do tamanho do problema. Trocar parte do tom beligerante por propostas concretas sobre emprego e dívida das famílias mostra leitura correta do momento eleitoral. O balanço mais amplo sobre a eficácia dessa campanha, porém, pede mais reserva, e está detalhado em O Tom da Semana.

Pior momento · Renan Santos

A suspensão de propaganda, debates e fundo eleitoral por perfis não registrados era inteiramente evitável. O problema não veio de adversário nem de imprevisto, veio de uma etapa de compliance eleitoral que a própria campanha deveria ter resolvido antes do prazo. Já era o segundo tropeço do mesmo tipo em poucas semanas, e dois tropeços iguais deixam de ser acaso para virar padrão de gestão.

06 · O tom da semana

A dianteira de Lula é real, mas parou de crescer

Dianteira parada, contra adversário que já não recua no mesmo ritmo, é dianteira sob pressão, por mais que o discurso oficial de campanha prefira outro tom.

O atrito entre Mendonça e Moraes não muda uma vírgula do cenário eleitoral por si só, mas revela algo mais importante para quem trabalha com opinião pública: o quanto a imagem de uma instituição pode se fundir à de um campo político sem que ninguém tenha planejado isso. Moraes carrega o peso de anos de enfrentamento ao bolsonarismo mesmo tendo chegado ao Supremo pela mão de um governo que não era petista nem bolsonarista. Mendonça carrega o oposto, origem bolsonarista que nunca precisou de reinterpretação para ser lida como tal. A lição, para quem faz comunicação política, é que percepção se acumula decisão após decisão até virar senso comum, e depois de virar, é quase impossível desfazer só com discurso.

Do lado eleitoral, a semana pede tom mais cauteloso do que a manchete de primeiro turno sugere. O Radar mostra Lula parado em 37% e depois 36% nas duas rodadas Quaest, e Flávio parado em 30% e depois 29%. Ninguém cresceu. Mas o segundo turno, onde a eleição de fato se decide, se moveu, de um ponto de vantagem para Lula em 2 de setembro para empate exato em 7 de setembro, na mesma pesquisa. Lula segue com o voto mais consolidado da corrida — o que aparece nesse número é fidelidade, não crescimento, e base fiel que não se expande funciona como vantagem e como teto ao mesmo tempo.

Do outro lado, Flávio vinha perdendo terreno com nitidez desde o fim de agosto, um recuo de quatro pontos entre as rodadas BTG/Nexus de 24 e 31 de agosto, já registrado na Edição 03. Essa erosão perdeu velocidade justamente nesta semana. Apesar de meses de exposição negativa organizada pela campanha de Lula, incluindo o próprio discurso duro da Paulista sendo usado contra ele, Flávio não voltou a recuar no mesmo ritmo anterior. O dado é desconfortável, mas é dado, e qualquer campanha séria precisa admitir o que os números mostram antes de decidir o que fazer com eles.

Há um terceiro fator, que o Trendômetro desta edição registra e que esta análise precisa incorporar. Cury segue estável em terceiro lugar, sem sinal de teto, e a própria campanha de Lula já lê essa presença como recado do eleitor moderado, não como ruído a ignorar. O problema é que essa leitura ainda convive com resposta majoritariamente televisiva, quando o eleitorado que migra para Cury costuma ser, por definição, o mais desconfiado da política feita a partir de propaganda de massa. Disputá-lo com a mesma linguagem que o afastou dos dois polos é apostar contra o próprio diagnóstico.

Fica uma leitura possível, e vale colocá-la em debate: a de que a aposta de comunicação feita até aqui, concentrada em televisão e vídeo, esteja perto do limite do que consegue entregar sozinha. O PT carrega uma tradição de mobilização de rua e de porta a porta que remonta à década de 1980 e que, historicamente, amplia o que a propaganda de massa não alcança sozinha. Os dados públicos desta semana não permitem afirmar se essa capacidade está de fato mobilizada em toda a extensão do território nacional, ou se existe hoje um desalinhamento entre a direção nacional da campanha e a militância de base nos estados. Fica em aberto, e cabe à própria campanha respondê-la com mais transparência do que os números entregam de fora.

Também fica em aberto se a equipe de Lula está tranquila porque calcula que uma vitória em primeiro turno segue viável, ou se a aposta é outra, seguir explorando a rejeição mútua entre os dois campos até o fim da campanha. As duas hipóteses são compatíveis com os números desta semana, e nenhuma delas é mais confortável para a campanha do que a outra. O que os dados sustentam com segurança é que Flávio segue sendo adversário com histórico de controvérsias ainda pouco explorado de forma sistemática, e que a estagnação de Lula no primeiro turno, somada ao empate no segundo, pede revisão de ferramentas. Manter o curso, neste momento, é a opção mais arriscada das duas.

O Radar desta edição ajuda a calibrar o tamanho real do desafio. Descontados brancos, nulos e indecisos, Lula está a cerca de seis pontos percentuais de votos válidos de uma vitória em primeiro turno, Flávio está a quase quinze. Essa distância curta é, ao mesmo tempo, a melhor notícia da semana para a campanha e o argumento mais forte contra manter o piloto automático. Seis pontos são margem estreita o bastante para justificar exatamente o tipo de mobilização de rua que a televisão não entrega sozinha, e um teto de aprovação de governo abaixo da metade do eleitorado só costuma se mover batendo de porta em porta, dificilmente repetindo o mesmo formato de vídeo. A rodada BTG/Nexus de 8 de setembro, a primeira posterior à crise Mendonça-Moraes e ao ato da Paulista, será o primeiro teste real de qualquer ajuste que a campanha já tenha começado a fazer.

A distância que resume a semana

Seis pontos separam Lula de vencer sem segundo turno. Distância curta o bastante para justificar mobilização de rua, curta demais para justificar acomodação.

Patrick Paraense, editor de A Iskra.

Expediente

Expediente e fontes

Esta edição foi construída em duas frentes complementares: uma varredura do noticiário político da semana nos veículos jornalísticos já checados nas três edições anteriores, e o mapeamento das pesquisas eleitorais nacionais divulgadas na mesma janela, restrito aos institutos que já compõem o painel de referência do projeto. Duas instruções permanentes do cliente foram observadas integralmente: nenhum dado do instituto Gerp foi utilizado em qualquer hipótese, e nenhum dado do instituto Indexa/Broadcast foi utilizado por ainda não ter acumulado validação e reconhecimento nacional consolidado.

Editor de A Iskra. Patrick Paraense.

Publicação. Troika Comunicação, Política e Inteligência.

Pesquisa, redação e análise. Equipe editorial de A Iskra.

Edição 04. Fechamento em 7 de setembro de 2026.

Veículos consultados nesta edição

CartaCapital, CNN Brasil, Poder360, Jota, Gazeta do Povo, Exame, Agência Pública, Brasil de Fato, Tribuna de Jundiaí, Congresso em Foco. A relação indica consulta editorial e não concordância com os enquadramentos publicados.

Pesquisas e registros TSE

  • Quaest · 02/09, registro BR-07065/2026 · 07/09, registro BR-01720/2026
  • Datafolha · 03/09, registro BR-03669/2026
  • PoderData/Aya · 03/09, registro BR-07561/2026, inclui rejeição e avaliação de governo
  • BTG/Nexus · 24 e 31/08, registros BR-09028/2026 e BR-08900/2026, citadas para comparação histórica, apuradas na Edição 03

Fontes do panorama institucional e eleitoral

Crise Mendonça x Moraes, Agência Pública (05/09) e CartaCapital. Origem de Moraes, CartaCapital e Correio Braziliense. Origem e votos de Mendonça no STF, Brasil de Fato, Gazeta do Povo, Poder360 e Agência Brasil. Avaliação de Moraes por perfil eleitoral, Datafolha via CartaCapital. Entorno de Lula e Moraes, CNN Brasil (02/09). Caso Renan Santos e TSE, Jota, Poder360 e CNN Brasil. 7 de Setembro dos presidenciáveis, Exame e Gazeta do Povo. Ascensão de Cury e reação de Lula, CNN Brasil (01/09) e Gazeta do Povo.

Nota metodológica

Os percentuais eleitorais reproduzem exatamente os números publicados pelos institutos e pela cobertura jornalística correspondente. Cálculos de distância para maioria de votos válidos, no Radar de Pesquisas, são de autoria de A Iskra. Hipóteses sobre estratégia de campanha, em O Tom da Semana, são leitura editorial identificada como tal.

Expediente editorial

Publicação: A ISKRA, newsletter de comunicação política. Produção e edição: Troika Marketing. Edição: Volume 4. Fechamento: 7 de setembro de 2026.

Análise, sistematização, cálculo e interpretação editorial produzidos pela equipe da Troika Marketing para a ISKRA. Os resultados de pesquisa pertencem aos respectivos institutos, as médias, classificações e leituras estratégicas são elaboração própria desta edição.

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